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10/03/2023 às 15h40min - Atualizada em 10/03/2023 às 15h40min

Como pequenos municípios podem criar Sistemas Locais de Inovação

Não há uma ‘receita de bolo’, mas boas práticas podem ser incorporadas: recomenda-se começar pelas pessoas que irão articular o movimento local em prol da inovação – o empreendedorismo é sempre uma prática social.

Marcus Rocha
Foto: Christian Costa (Unsplash)


Por Marcus Rocha, Conselheiro e Especialista em Ecossistemas e Habitats de Inovação.

Esta coluna tem como um dos seus principais assuntos os “Ecossistemas de Inovação”. Vale sempre lembrar que se trata de um conceito que utiliza para o ambiente socioeconômico uma metáfora dos ecossistemas naturais.

Na natureza, um ecossistema contempla uma área geográfica definida, onde os seres vivos vivem em equilíbrio com o ambiente natural e prosperam. No caso da inovação, apesar de não haver clareza sobre os parâmetros para definir a abrangência geográfica, utiliza-se a metáfora do ecossistema natural para explicar as relações entre diferentes atores ‘vivos’, tais como empresas, universidades, centros de pesquisa, governo, e a sociedade civil, que trabalham em um certo equilíbrio com o ambiente ‘natural’ urbano, econômico, social e ambiental do respectivo território e, a partir dessas interações, promovem o desenvolvimento de empreendimentos inovadores de sucesso.

Para explicar quais tipos de atores devem estar presentes em um território para que seja possível desenvolver um ecossistema de inovação, foram criados diferentes modelos, sendo que o mais utilizado ainda seja o da ‘quádrupla hélice’. Ou seja, as quatro categorias mínimas que precisam existir para que haja um ambiente fértil para o desenvolvimento do empreendedorismo inovador, conforme esse modelo, são Empresas, Governo, Academia e Sociedade Civil.
O modelo da quádrupla hélice

O modelo da quádrupla hélice

Modelo dos atores dos ecossistemas de empreendedorismo inovador com 4 “hélices” (J. Audy e J. Piqué, 2018
Importante relembrar que o tema Inovação passou a ser relevante principalmente porque a concorrência entre as organizações – especialmente as empresas – atualmente possui escala global. Aquelas que criam produtos, serviços, práticas organizacionais ou de marketing que sejam inéditas ou pelo menos significativamente melhoradas em relação ao que existe no mercado mundial – ou seja, inovam -, passam a ter vantagens competitivas perante seus concorrentes.

Organizações que rapidamente adquirem essas inovações também reforçam suas posições mercadológicas. De modo inverso, organizações que não desenvolvem inovações ou que demoram a adquiri-las, tendem a perder competitividade e, mais cedo ou mais tarde, falhar. 

Territórios que reforçam essas ações de desenvolvimento e compras de inovações prosperam, enquanto os que não realizam isso, entram em crise. É por isso que o assunto dos Ecossistemas de Inovação também se tornou tão relevante. Quando são desenvolvidos com sucesso, esses locais passam a ter um ambiente fértil para a criação de novos negócios e cadeias produtivas que crescem rapidamente, promovendo ciclos virtuosos de desenvolvimento sustentável – econômico, social e ambiental – que trazem ganhos para toda a sociedade local e que permanecem por longos períodos de tempo.

O CAMINHO PARA OS PEQUENOS MUNICÍPIOS

No entanto, da mesma forma que vários dos primeiros processos e metodologias para inovação foram desenvolvidos e são direcionados para grandes empresas, os modelos de ecossistemas de inovação também claramente se destinam para municípios de maior porte, com quantidade de qualidade de atores de todas as quatro hélices já mencionadas anteriormente. Assim, fica a pergunta: o que os municípios de pequeno porte podem fazer para promoverem ambientes férteis para o desenvolvimento do empreendedorismo inovador?

Criar e contratar inovações é algo obrigatório para a sobrevivência e para maior competitividade das organizações – independentemente do seu porte. Então o desenvolvimento de ecossistemas também é algo fundamental. Porém, em cidades pequenas muitas vezes não há atores das quatro hélices. Claro que sempre haverá empresas e um Governo Municipal, que aqui no Brasil é exercido pela Prefeitura e pela Câmara de Vereadores. Mas nem toda cidade possui Universidades, Centros de Pesquisa, ou organizações da Sociedade Civil Organizada. O que fazer nesses casos?

Cabe destacar que não há uma ‘receita de bolo’ para isso, mas há algumas boas práticas que podem ser incorporadas no território. Recomenda-se sempre começar pelas pessoas que irão articular o movimento local em prol da inovação, pois o empreendedorismo sempre foi e será uma atividade social, ou melhor, socioeconômica.

Portanto, um primeiro passo deve ser identificar as lideranças locais que empreendem com sucesso e que tenham vontade de trabalhar voluntariamente para a promoção do empreendedorismo local. É bem provável que a maior parte dessas pessoas não compreendam bem os conceitos de inovação, mas não há problema. Para isso, podem ser chamadas pessoas ou organizações especializadas para capacitar essas lideranças, com destaque para o trabalho bem-sucedido desenvolvido nessa direção pelas entidades do ‘Sistema S’, principalmente o Sebrae.

Uma vez que as lideranças locais estão sensibilizadas e capacitadas, também é necessário organizar uma agenda com um foco bem definido para orientar as atividades de inovação. Para garantir o engajamento, é importante ter foco em resultados, principalmente considerando que a cultura vigente para o desenvolvimento de negócios no Brasil não gosta de esperar pelo longo prazo. Esse foco pode ser obtido escolhendo o principal setor econômico da região, aquele que será mais beneficiado com o reforço da competitividade trazido pelo desenvolvimento de inovações. 

A IMPORTÂNCIA DE UMA ESTRUTURA DE GOVERNANÇA

Com isso, a agenda de trabalho passa a se concentrar no desenvolvimento de soluções inovadoras para desafios reais desse setor, sentido pelas organizações estabelecidas no próprio território. Para organizar esse movimento é importante criar uma estrutura de governança setorial, que deve organizar os trabalhos e garantir a identificação e priorização dos desafios, além de chamar mais pessoas com perfil empreendedor a partir desse movimento.

Caso o município não tenha uma faculdade, universidade ou centro de pesquisa que trabalhe com a capacitação e/ou o desenvolvimento de tecnologias para o setor econômico que foi priorizado, há dois movimentos não-excludentes que podem ser feitos. Inicialmente, atrair as instituições de ensino e pesquisa que tenham presença próxima ao município, chamando lideranças a participar desse movimento em prol da inovação. Mais adiante, pode-se criar um movimento local maior, com o objetivo de atrair essa instituição para instalar uma base no território, a partir do sucesso das ações iniciais.

Paralelamente é importante desenvolver ações que dêem suporte ao desenvolvimento de empreendimentos inovadores. De maneira setorial, devem ser desenvolvidas iniciativas que apliquem metodologias que reduzam o risco dos empreendimentos inovadores, que podem ser menos impactados pelo chamado ‘vale da morte’, dados os diferentes riscos inerentes à inovação. A partir dos desafios para os quais se busca o desenvolvimento de inovações, que devem ser continuamente identificados pelas lideranças locais, é necessário desenvolver diferentes atividades e eventos para inicialmente estimular as ideias de soluções criativas, serviços de validação e estruturação de negócios inovadores, etc. 
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Como exemplos práticos temos os meetups, os bootcamps, os hackathons, pré-incubadoras, incubadoras, e outros serviços que criam uma ‘ponte’ para um caminho seguro aos empreendimentos, que passam a ter menor mortalidade caso o trabalho seja bem-sucedido. Novamente, as entidades do Sistema S tendem a ser boas parceiras nesse sentido.

Todo esse trabalho que, diga-se de passagem, não é fácil nem rápido, e exige dedicação e resiliência das lideranças locais, tende a criar um movimento positivo de empreendedorismo que atrai a atenção de mais atores locais. Principalmente se os desafios setoriais propostos forem sendo respondidos por meio de boas inovações que passam a criar empresas bem-sucedidas no município, há uma boa chance das empresas locais começarem a ver boas oportunidades de investimentos, ajudando a financiar algumas das ações e das empresas criadas.

Claro que em um artigo como este não é possível detalhar todas as opções e caminhos para ajudar a desenvolver um ambiente féril para o desenvolvimento de empreendimentos inovadores em cidades de menor porte. No entanto, traz alguns caminhos e provocações, a partir de casos de sucesso de municípios maiores. Mesmo que a cidade não tenha o potencial de ter um ecossistema de inovação, ela pode e deve desenvolver um ou mais sistemas para estimular o empreendedorismo inovador. 

Inclusive, muitas vezes as organizações e cidades de menor porte podem utilizar a seu favor o seu menor tamanho, pois certamente serão mais ágeis e terão mais foco, pois os processos e relacionamentos tendem a ser muito mais facilitados, tendo maiores chances de sucesso na criação de negócios inovadores em seu território, em quantidade e com qualidade. 
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