Todo ditador da história combateu a desinformação

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Não é sobre o que é falso. É sobre o que incomoda. Não é sobre proteger o cidadão da mentira. É sobre proteger o poder da verdade. E a diferença entre essas duas coisas — por menor que pareça num primeiro olhar — é a diferença entre democracia e ditadura com boa assessoria de imprensa.

Existe uma técnica milenar de controle narrativo que funciona com precisão cirúrgica em qualquer época, em qualquer regime, em qualquer latitude: você não precisa proibir a informação. Você precisa desqualificar quem a produz.

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Na Idade Média, chamavam de heresia. No século XX, de propaganda inimiga. Nos anos recentes, descobriram um termo mais elegante, mais moderno, mais palatável para uma sociedade que se acha democrática: fake news.

O mecanismo é sempre o mesmo. Quando o poder controla a narrativa, a informação que o confirma é “jornalismo sério”. A informação que o questiona é “desinformação”. A crítica que o incomoda é “discurso de ódio”. A dúvida que o desafia é “ataque às instituições”.

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Simples. Eficiente. Quase genial na sua brutalidade disfarçada de proteção.

É chamado de “combate à desinformação” a estrutura que monitora redes sociais, produz relatórios sobre conteúdos políticos e serve de base para decisões de remoção de perfis e postagens. Em bom português: um tribunal que julga também investiga, também acusa, também decide o que é verdade. Separação dos poderes?

Antes que você ache que o problema é novo, que nasceu com a internet, com as redes sociais ou com qualquer tecnologia recente, preciso te fazer um passeio rápido pela história do controle da informação. Porque o que muda é o veículo. O que nunca muda é quem segura o microfone — e por quê.

Antes da internet, era a televisão o Olimpo da verdade. Os grandes jornalistas de bancada — aqueles de terno bem passado, cabelo impecável e tom solene de quem acabou de receber revelação divina — eram os sacerdotes do fato. O que eles diziam era real. O que eles ignoravam não existia. E o que os patrocinadores não queriam que você soubesse simplesmente não entrava no horário nobre. Não era mentira declarada — era curadoria cuidadosa da realidade, feita por quem pagava os salários.

Antes da televisão, era o rádio. E no rádio, o jabá — aquela prática honesta de pagar para tocar, para falar, para elogiar — era a moeda corrente do “jornalismo”. O patrocinador comprava não apenas o espaço comercial, mas o tom da cobertura, a ênfase da notícia, o silêncio conveniente sobre o que não convinha mostrar. A voz no rádio tinha a autoridade de Deus numa época em que a maioria da população não sabia ler. Quem controlava a frequência controlava a percepção de realidade de milhões.

E antes do rádio? Os jornais impressos, onde a “liberdade de imprensa” pertencia a quem tinha a gráfica. Eram cinco, dez, quinze famílias no Brasil inteiro que decidiam o que o país sabia. Capazes da verdade, capatazes da narrativa. O jornal do coronel dizia o que o coronel queria. O jornal do industrial protegia o industrial. E o cidadão comum — analfabeto na sua maioria, isolado geograficamente, sem nenhum meio de verificação — engolia o que lhe serviam e chamava isso de informação.

A “fake news” de hoje tem pedigree histórico, só mudou de endereço. Mas o grande problema é que as “mídias tradicionais” perderem espaço e a “nova mídia” abriu espaço para milhões de “jornalistas” poderem falar e com um preço muito mais em conta para que outras empresas também entrassem no jogo do patrocínio, não apenas as grandes empresas.

Ou seja, pela primeira vez na história, qualquer pessoa com um celular poderia publicar, questionar, contradizer, investigar e distribuir informação sem passar pelo filtro dos donos da gráfica, da frequência de rádio ou da concessão televisiva. E isso, para o poder, foi uma catástrofe.

Em agosto de 2024, o aplicativo X foi suspenso no Brasil por decisão de um entre 200 milhões. Não importa qual lado do espectro político você ocupa — esse fato deveria te preocupar. Porque hoje bloqueiam quem você não gosta. Amanhã podem bloquear quem você é… afinal, “a política igual as nuvens vão para o lado que o vento sopra”.

Você pode ter sido investigado sem saber. Seus dados podem ter sido entregues sem seu consentimento. Um documentário com conteúdo crítico ao processo eleitoral foi bloqueado antes do lançamento — o que configura censura prévia. Censura prévia. Proibição de algo que ainda nem havia sido publicado. Na constituição que esse mesmo poder jura defender existe um artigo — o quinto, inciso IX — que diz ser livre a expressão da atividade intelectual e que a censura não será tolerada, será?

Quem decide o que é fake news? O próprio TSE criou uma estrutura interna de “combate à desinformação” que produz relatórios e alimenta diretamente decisões da corte. Ou seja: o mesmo órgão que investiga, que processa, que condena e que define o que é verdade — é o mesmo órgão que decide o que você pode ou não pode ler, publicar e compartilhar. Isso tem nome. Na história, esse arranjo sempre teve o mesmo nome, independente do uniforme que usava, do partido que representava ou da bandeira que hasteava.

Existe uma hipocrisia que permeia o debate sobre fake news no Brasil que é quase bela na sua audácia: Os mesmos que durante décadas controlaram o fluxo de informação pelo monopólio da TV, do rádio e dos jornais impressos — que decidiram o que o povo sabia, o que ignorava, quem era herói e quem era vilão — são hoje os mais fervorosos defensores do “combate à desinformação”.

E o mais fascinante? Funciona. Uma parcela significativa da população acredita que o problema da informação é novo, que surgiu com as redes sociais, que antes havia um paraíso de jornalismo honesto e responsável — e que agora é preciso restaurar essa era dourada que, convenhamos, nunca existiu.

Aqui está o que ninguém quer admitir: o problema nunca foi a mentira. O problema sempre foi quem controla a distinção entre mentira e verdade.

Toda censura da história foi justificada. Toda. Sem exceção.

A pergunta que você deveria fazer — não é “essa informação é verdadeira ou falsa?” A pergunta é:

Quem lucra com o fato de você não poder fazer essa pergunta?

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