{"id":3596,"date":"2025-07-14T07:30:00","date_gmt":"2025-07-14T10:30:00","guid":{"rendered":"https:\/\/cidadenoar.com\/?p=3596"},"modified":"2025-07-13T11:29:00","modified_gmt":"2025-07-13T14:29:00","slug":"dia-mundial-do-rock-rebeldia-de-verdade-nao-se-compra-em-loja-de-fantasia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cidadenoar.com\/global\/opiniao\/dia-mundial-do-rock-rebeldia-de-verdade-nao-se-compra-em-loja-de-fantasia\/","title":{"rendered":"Dia Mundial do Rock: Rebeldia de verdade n\u00e3o se compra em loja de fantasia"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ontem foi o Dia Mundial do Rock. choveu foto de camiseta preta, pose de rebelde e, claro, aquele festival de frases de efeito sobre \u201cliberdade\u201d, \u201catitude\u201d e \u201ctransgress\u00e3o\u201d. Tudo muito bonito \u2014 e, na maioria das vezes, t\u00e3o aut\u00eantico quanto um reality show.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O rock nasceu da rebeldia, mas n\u00e3o dessa rebeldia de mimadinho de internet que ergue o dedo do meio e que quebra guitarra feito um idiota. A rebeldia do rock era \u2014 e deveria ser \u2014 um chamado \u00e0 consci\u00eancia, uma recusa em aceitar o mundo pronto, um grito contra a mesmice, n\u00e3o uma playlist armada pela patrocinadora para um festival dos reclames do <em>plim plim<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">L\u00e1 atr\u00e1s, quando Bob Dylan trocou o viol\u00e3o pela guitarra el\u00e9trica, n\u00e3o foi s\u00f3 para fazer barulho: foi para dizer que a poesia podia ser arma (tal qual Raulzito nos trouxe, que a espada era a guitarra na m\u00e3o). O rock, p\u00f3s-Dylan, passou a ser trincheira de ideias. As letras viraram cr\u00f4nica social, existencial, pol\u00edtica \u2014 mas n\u00e3o dessa pol\u00edtica de torcida organizada e lacra\u00e7\u00e3o. Era pol\u00edtica da vida real, do sujeito que olha o absurdo e diz: \u201cN\u00e3o aceito\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A rebeldia do rock era profunda porque vinha carregada de sentido. N\u00e3o era s\u00f3 reclamar por reclamar: era denunciar, propor, incomodar (Marcelo Nova que o diga). Era o libert\u00e1rio \u2014 n\u00e3o o partid\u00e1rio. O rock era vanguarda porque n\u00e3o precisava de uniforme: bastava atitude, intelig\u00eancia, coragem de pensar diferente e fazer do seu jeito. N\u00e3o era preciso tatuar o corpo inteiro, nem se entupir de droga para provar que era \u201cfora do padr\u00e3o\u201d. O verdadeiro &#8220;rocker&#8221; era o que ousava desafiar o padr\u00e3o, n\u00e3o o que fazia pose de artista enquanto seguia o script da moda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas a\u00ed, o tempo passou. O rock, que era visceral e perigoso, resolveu dar uma passadinha no sal\u00e3o de beleza l\u00e1 pelos anos 80\/90. Nos anos 2000, a coisa degringolou de vez: o rock come\u00e7ou a frequentar est\u00e9tica vegana, trilha \u201cgrungemo\u201d existencial para adolescente com crise de identidade. As olheiras de quem varava a noite pensando o sentido da vida foram trocadas pelas olheiras de quem chorou, seja porque est\u00e1 depressivo com a realidade nua e crua da vida ou ansioso por que a vida \u00e9 maior que o quarto da casa dos pais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje, qualquer um acha que \u00e9 rebelde porque tem tatuagem, mas qualquer z\u00e9 man\u00e9 tem tatuagem e a verdadeira rebeldia foi, \u00e9 e sempre ser\u00e1 n\u00e3o seguir essa e outras modinhas que as vezes at\u00e9 parecem s\u00e9rias, mas \u00e9 tudo tudo arma\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Dia Mundial do Rock, vale lembrar: rebeldia n\u00e3o \u00e9 produto de prateleira. N\u00e3o se compra em loja de camiseta, n\u00e3o se tatua na pele, n\u00e3o se aprende em tutorial da internet. Rebeldia de verdade \u00e9 aquela que faz pensar, que incomoda, que transforma. O resto \u00e9 s\u00f3 barulho \u2014 e, convenhamos, barulho por barulho, qualquer liquidificador faz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No final das contas, o rock nunca foi sobre quebrar guitarras \u2014 foi sobre quebrar as grades do pensamento pronto. E, para quem acha que rebeldia \u00e9 s\u00f3 pose para propaganda e ter plateia, fica o recado de Mr. Wilde: \u201cA arte nunca deve tentar ser popular. O p\u00fablico \u00e9 que deve tentar ser art\u00edstico.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No fundo, o verdadeiro barulho que o rock faz \u00e9 dentro da cabe\u00e7a de quem ousa pensar diferente. O resto \u00e9 s\u00f3 eco &#8211; dos cantos de passarinhos presos em suas gaiolinhas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ontem foi o Dia Mundial do Rock. choveu foto de camiseta preta, pose de rebelde e, claro, aquele festival de frases de efeito sobre \u201cliberdade\u201d, \u201catitude\u201d e \u201ctransgress\u00e3o\u201d. 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