{"id":5879,"date":"2025-10-06T07:30:00","date_gmt":"2025-10-06T10:30:00","guid":{"rendered":"https:\/\/cidadenoar.com\/?p=5879"},"modified":"2025-10-05T10:07:05","modified_gmt":"2025-10-05T13:07:05","slug":"raul-seixas-as-novas-nao-tao-novas-profecias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cidadenoar.com\/global\/opiniao\/raul-seixas-as-novas-nao-tao-novas-profecias\/","title":{"rendered":"Raul Seixas: As (novas \u2013 n\u00e3o t\u00e3o novas) Profecias"},"content":{"rendered":"\n<p>H\u00e1 momentos na hist\u00f3ria em que a arte transcende seu tempo e se transforma em advert\u00eancia. Raul Seixas, morto em 1989 aos 44 anos, pertence a essa rara categoria de artistas cujas obras n\u00e3o apenas envelhecem bem \u2014 elas ganham o t\u00edtulo de atemporais. Sua obra \u00e9 gigantesca e aqui abordaremos apenas uma min\u00fascula parte dela fazendo um paralelo com o dia que escrevo essa coluna.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando ele cantava &#8220;a solu\u00e7\u00e3o pro nosso povo eu vou dar, neg\u00f3cio bom assim ningu\u00e9m nunca viu, a solu\u00e7\u00e3o \u00e9 alugar o Brasil&#8221;, n\u00e3o estava fazendo apenas rock contestador ou s\u00e1tira pol\u00edtica. Estava mapeando o DNA de um pa\u00eds que nunca conseguiu se livrar da condi\u00e7\u00e3o de col\u00f4nia, apenas trocou os senhores coloniais por novos patr\u00f5ezinhos.<\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil de hoje &#8211; n\u00e3o escreverei 2025 porque creio que n\u00e3o importe o ano ainda estaremos nessa &#8211; vive exatamente o cen\u00e1rio que Raul antecipou com uma precis\u00e3o que beira o sobrenatural. A discuss\u00e3o sobre venda de terras para estrangeiros voltou ao Congresso, projetos de lei flexibilizam restri\u00e7\u00f5es que deveriam ser intoc\u00e1veis, e o debate sobre minerais cr\u00edticos \u2014 l\u00edtio, cobalto, grafeno, ni\u00f3bio, entre outros revela que continuamos sendo um fornecedor de mat\u00e9ria-prima barata que entrega recursos naturais estrat\u00e9gicos a empresas estrangeiras enquanto o poder geopol\u00edtico global se redefine, e ainda \u201crecompramos\u201d nossas mat\u00e9rias-primas muito mais caras porque \u201calgu\u00e9m de fora as lapidou\u201d. &#8220;Os estrangeiros eu sei que eles v\u00e3o gostar, tem o Atl\u00e2ntico, tem vista pro mar, a Amaz\u00f4nia \u00e9 o jardim do quintal&#8221;&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas talvez a m\u00fasica mais sombria e prof\u00e9tica do repert\u00f3rio de Raulzito seja &#8220;Metr\u00f4 Linha 743&#8221;, composta ap\u00f3s ele ser preso, torturado e exilado em 1974. A letra narra um encontro casual onde policiais param o protagonista n\u00e3o para pedir documentos, mas para perguntar &#8220;o que voc\u00ea estava pensando&#8221;. Essa frase, que soava como distopia na \u00e9poca do regime militar, encontra eco arrepiante no Brasil de hoje, onde h\u00e1 quem dite que redes sociais devem &#8220;retirar imediatamente conte\u00fados ilegais&#8221; e podem ser responsabilizadas por postagens de usu\u00e1rios, tornando-se o \u00fanico pa\u00eds no mundo em que o judici\u00e1rio imp\u00f4s sozinho as regras de controle do discurso nas redes sociais. Assim como na m\u00fasica de Raul, onde os agentes queriam saber &#8220;o que voc\u00ea estava pensando&#8221;, hoje o estado brasileiro arroga-se o poder de definir os limites do discurso permitido. A frase mais assustadora da can\u00e7\u00e3o \u2014 &#8220;o prato mais caro do melhor banquete \u00e9 o que se come cabe\u00e7a de gente que pensa&#8221; \u2014 ecoa na regulamenta\u00e7\u00e3o das big techs, onde a justificativa \u00e9 sempre a prote\u00e7\u00e3o, mas o resultado \u00e9 o controle do pensamento dissidente. Mudaram as vestimentas, mudaram os m\u00e9todos, mas a ess\u00eancia autorit\u00e1ria permanece intacta.<\/p>\n\n\n\n<p>A melancolia existencial de &#8220;Ouro de Tolo&#8221; capturou um fen\u00f4meno que se massificou na era digital de maneira que Raul jamais poderia imaginar em sua magnitude. Quando ele cantava sobre o conformismo burgu\u00eas \u2014 onde o protagonista &#8220;devia estar contente&#8221; com seu emprego e sal\u00e1rio \u2014 e sobre a busca por &#8220;discos voadores&#8221; como alternativa a uma vida repetitiva e sem sentido, ele estava diagnosticando a aliena\u00e7\u00e3o fundamental do cidad\u00e3o moderno. O &#8220;disco voador&#8221; virou algoritmo \u2014 uma promessa de transcend\u00eancia que nunca chega, mas mant\u00e9m as pessoas presas em bolhas digitais<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eu sou a mosca que pousou em sua sopa&#8221; tornou-se um dos bord\u00f5es mais marcantes da m\u00fasica brasileira, mas sua dimens\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 constantemente esquecida ou deliberadamente ignorada. Raul se definia como a mosca \u2014 o elemento inc\u00f4modo que n\u00e3o pode ser ignorado ou eliminado, mesmo que esmagado. Essa met\u00e1fora encontra ecos diretos nos movimentos de protesto contempor\u00e2neos, onde manifestantes que v\u00e3o \u00e0s ruas s\u00e3o as novas &#8220;moscas&#8221; que pousam na &#8220;sopa&#8221; do sistema pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 em &#8220;O Dia em que a Terra Parou&#8221;, que descrevia um mundo onde &#8220;ningu\u00e9m saiu de casa&#8221; e &#8220;o empregado n\u00e3o saiu pro seu trabalho, pois sabia que o patr\u00e3o tamb\u00e9m n\u00e3o tava l\u00e1&#8221;. Durante a pandemia de COVID-19, essa m\u00fasica virou trilha sonora espont\u00e2nea do lockdown, como se Raul tivesse previsto at\u00e9 mesmo os detalhes mais espec\u00edficos de uma crise \u201cpol\u00edtica sanit\u00e1ria\u201d fez o imp\u00e9rio do medo se revelar e a busca por uma &#8220;Sociedade Alternativa&#8221; baseada no princ\u00edpio \u201cradical\u201d do &#8220;faz o que tu queres, pois \u00e9 tudo da lei&#8221; virou at\u00e9 o que voc\u00ea pode comprar, trabalhar&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>O que torna as can\u00e7\u00f5es de Raul Seixas t\u00e3o atuais n\u00e3o \u00e9 apenas sua capacidade de antecipar eventos espec\u00edficos, mas sua compreens\u00e3o profunda das contradi\u00e7\u00f5es estruturais da sociedade brasileira que nenhuma reforma superficial consegue resolver. Ele identificou os n\u00f3dulos problem\u00e1ticos que continuariam a se manifestar gera\u00e7\u00e3o ap\u00f3s gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais de tr\u00eas d\u00e9cadas ap\u00f3s sua morte, Raul Seixas permanece &#8220;a mosca na sopa&#8221; da consci\u00eancia nacional \u2014 um inc\u00f4modo necess\u00e1rio que nos for\u00e7a a encarar realidades que prefer\u00edamos varrer para debaixo do tapete. Suas m\u00fasicas n\u00e3o eram apenas entretenimento ou protesto; eram radiografias brutalmente honestas de um pa\u00eds que insiste em repetir seus padr\u00f5es autodestrutivos com uma regularidade quase religiosa. A trag\u00e9dia \u00e9 que, apesar de toda a lucidez Raulseixista, o Brasil continua caminhando exatamente na dire\u00e7\u00e3o que ele denunciou. A ironia amarga \u00e9 que, cinquenta anos depois, ainda estamos &#8220;alugando o Brasil&#8221;, ainda temos &#8220;canibais de cabe\u00e7a&#8221; perseguindo quem pensa diferente, e ainda buscamos &#8220;discos voadores&#8221; para nos salvar de uma realidade que n\u00f3s mesmos criamos e mantemos por pura covardia existencial.<\/p>\n\n\n\n<p>Raul Seixas n\u00e3o foi apenas um m\u00fasico rebelde, um m\u00edstico exc\u00eantrico ou um roqueiro maluco. Foi um analista social de primeira grandeza, cujo diagn\u00f3stico sobre o Brasil continua dolorosamente preciso d\u00e9cadas depois. Ele teve a coragem de dizer verdades que os &#8220;s\u00e9rios&#8221; acad\u00eamicos, pol\u00edticos e formadores de opini\u00e3o preferiam esconder atr\u00e1s de eufemismos, jarg\u00f5es t\u00e9cnicos e narrativas reconfortantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Raulzito segue vivo porque suas m\u00fasicas s\u00e3o bisturis que cortam fundo nas feridas abertas do Brasil, e o fato de que em 2025 suas letras pare\u00e7am ter sido escritas ontem n\u00e3o \u00e9 homenagem ao artista \u2014 \u00e9 condena\u00e7\u00e3o brutal ao pa\u00eds que aprendeu absolutamente nada com suas advert\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>A obra de Raul Seixas permanece como um espelho cruel e necess\u00e1rio que, apesar de todas as transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas e pol\u00edticas, continua preso aos mesmos dilemas existenciais que ele t\u00e3o brilhantemente diagnosticou h\u00e1 meio s\u00e9culo. E se suas letras continuam atuais, al\u00e9m do fato dele ter sido genial \u00e9 porque n\u00f3s, como na\u00e7\u00e3o, somos patologicamente incapazes de aprender com nossos pr\u00f3prios erros, preferindo repetir os mesmos padr\u00f5es destrutivos \u2013 somos t\u00e3o mais involu\u00eddos&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 momentos na hist\u00f3ria em que a arte transcende seu tempo e se transforma em advert\u00eancia. Raul Seixas, morto em 1989 aos 44 anos, pertence a essa rara categoria de artistas cujas obras n\u00e3o apenas envelhecem bem \u2014 elas ganham o t\u00edtulo de atemporais. Sua obra \u00e9 gigantesca e aqui abordaremos apenas uma min\u00fascula parte&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":28,"featured_media":5882,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-5879","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cidadenoar.com\/global\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5879","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cidadenoar.com\/global\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cidadenoar.com\/global\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cidadenoar.com\/global\/wp-json\/wp\/v2\/users\/28"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cidadenoar.com\/global\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5879"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/cidadenoar.com\/global\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5879\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5880,"href":"https:\/\/cidadenoar.com\/global\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5879\/revisions\/5880"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cidadenoar.com\/global\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5882"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cidadenoar.com\/global\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5879"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cidadenoar.com\/global\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5879"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cidadenoar.com\/global\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5879"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}