{"id":7080,"date":"2026-01-19T07:30:00","date_gmt":"2026-01-19T10:30:00","guid":{"rendered":"https:\/\/cidadenoar.com\/global\/?p=7080"},"modified":"2026-01-19T12:03:39","modified_gmt":"2026-01-19T15:03:39","slug":"entre-1881-e-1882-existiu-o-alienista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cidadenoar.com\/global\/opiniao\/entre-1881-e-1882-existiu-o-alienista\/","title":{"rendered":"Entre 1881 e 1882 existiu O Alienista"},"content":{"rendered":"\n<p>Sim\u00e3o Bacamarte \u00e9 um homem de ci\u00eancia respeitado, algu\u00e9m que viajou pela Europa e pelo Brasil consolidando reputa\u00e7\u00e3o como m\u00e9dico de primeira linha. Quando retorna \u00e0 pequena vila de Itagua\u00ed com essa aur\u00e9ola de conhecimento, traz consigo uma decis\u00e3o que marcar\u00e1 para sempre o destino daquela comunidade: dedicar-se ao estudo cient\u00edfico da aliena\u00e7\u00e3o mental\u2014aquilo que chamamos hoje de psiquiatria.<\/p>\n\n\n\n<p>Bacamarte n\u00e3o \u00e9 um homem trivial. \u00c9 algu\u00e9m movido por voca\u00e7\u00e3o genu\u00edna, pela certeza inabal\u00e1vel de que a raz\u00e3o cient\u00edfica pode dominar os mist\u00e9rios da mente humana. Escolhe para esposa uma vi\u00fava de meia-idade chamada Dona Evarista\u2014n\u00e3o por amor, mas por frio c\u00e1lculo racional. Ela n\u00e3o \u00e9 bonita nem simp\u00e1tica, mas possui sa\u00fade robusta e capacidade reprodutiva, caracter\u00edsticas que o doutor julga essenciais para gerar prole de qualidade. \u00c9 significativo que o casal nunca consegue ter filhos. Essa esterilidade inicial j\u00e1 cont\u00e9m ironia.<\/p>\n\n\n\n<p>Bacamarte obt\u00e9m autoriza\u00e7\u00e3o da C\u00e2mara Municipal para construir um manic\u00f4mio. Ergue-se ent\u00e3o a Casa Verde, assim chamada pela cor de suas janelas\u2014uma institui\u00e7\u00e3o que ser\u00e1 simultaneamente abrigo, laborat\u00f3rio e c\u00e1rcere. O doutor a concebe como espa\u00e7o de pesquisa rigorosa, onde poder\u00e1 observar, catalogar e, eventualmente, curar todos os loucos da regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio, tudo parece funcionar conforme esperado. Os primeiros internados s\u00e3o verdadeiramente alienados\u2014pessoas com perturba\u00e7\u00f5es mentais \u00f3bvias que a popula\u00e7\u00e3o aceita ver removidas da conviv\u00eancia di\u00e1ria. Mas \u00e9 aqui que come\u00e7a o desvirtuamento sublime da narrativa.<\/p>\n\n\n\n<p>Bacamarte, imerso em seus estudos, passa a enxergar loucura onde antes havia apenas eccentricidade, e eccentricidade onde havia apenas normalidade. Seu olhar, treinado para detectar patologia, come\u00e7a a ver desvios em tudo e em todos. O primeiro caso significativo \u00e9 Costa, um homem que perdeu sua heran\u00e7a emprestando dinheiro a amigos e n\u00e3o conseguindo cobrar. Para Bacamarte, essa generosidade ing\u00eanua \u00e9 sintoma de desequil\u00edbrio mental. Costa \u00e9 internado.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois vem o vereador Galv\u00e3o, que, em sess\u00e3o da C\u00e2mara, prop\u00f5e lei que pro\u00edba a interna\u00e7\u00e3o de vereadores. O gesto defensivo \u00e9 interpretado pelo alienista como sinal inequ\u00edvoco de loucura\u2014afinal, um homem racional n\u00e3o temeria interna\u00e7\u00e3o se estivesse s\u00e3o. Galv\u00e3o entra na Casa Verde.<\/p>\n\n\n\n<p>O Padre Lopes, vig\u00e1rio virtuoso da cidade, homem de integridade not\u00f3ria, \u00e9 considerado louco precisamente por sua perfei\u00e7\u00e3o moral. Um indiv\u00edduo com equil\u00edbrio t\u00e3o perfeito entre v\u00edcio e virtude n\u00e3o poderia ser normal\u2014deve haver algo patol\u00f3gico naquela integridade excessiva. O padre segue para a Casa Verde.<\/p>\n\n\n\n<p>A popula\u00e7\u00e3o come\u00e7a a se inquietar. Amigos desaparecem nas paredes verdes. Fam\u00edlias se veem separadas. Rumores circulam pela vila\u2014quem ser\u00e1 o pr\u00f3ximo? Qual comportamento ser\u00e1 classificado como loucura? Ningu\u00e9m est\u00e1 seguro, porque os crit\u00e9rios do doutor s\u00e3o movedi\u00e7os, fluidos, determinados n\u00e3o por ci\u00eancia objetiva mas por sua intui\u00e7\u00e3o em constante muta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 ent\u00e3o que Porf\u00edrio, barbeiro ambicioso e orador de talento, percebe oportunidade. Mobiliza a popula\u00e7\u00e3o ressentida e lidera a chamada Revolta dos Canjicas (apelido que recebia por vender canjica na rua). Os revoltosos marcha at\u00e9 o casar\u00e3o do alienista, exigindo fechamento da Casa Verde e libera\u00e7\u00e3o dos internados.<\/p>\n\n\n\n<p>Bacamarte recebe a multid\u00e3o com tranquilidade perturbadora. Ouve as acusa\u00e7\u00f5es, reconhece a f\u00faria popular, mas, com um gesto indiferente, volta-se para seus livros, como se aquela rebeli\u00e3o fosse mero inc\u00f4modo. Por um momento, parece que a multid\u00e3o se dissipar\u00e1, apaziguada pela frieza racional do doutor.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a\u00ed ocorre algo revelador: quando Bacamarte lhes vira as costas, o povo se revolta novamente. A pol\u00edcia chega para controlar tumulto\u2014e ent\u00e3o, em reviravolta c\u00f4mica, a for\u00e7a policial se une aos revoltosos. Porf\u00edrio subitamente vira governante da prov\u00edncia, aclamado como libertador.<\/p>\n\n\n\n<p>O desfecho dessa rebeli\u00e3o \u00e9 onde Machado revela sua compreens\u00e3o corrosiva da natureza humana. Porf\u00edrio, em vez de derrotar Bacamarte, negocia com ele. O barbeiro ambicioso reconhece que o alienista possui algo que ele deseja: autoridade, poder de defini\u00e7\u00e3o, legitimidade de &#8220;ci\u00eancia&#8221;. Fazem acordo: as interna\u00e7\u00f5es continuar\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso desencadeia cascata de eventos igualmente absurdos. Cinquenta apoiadores da revolta de Porf\u00edrio s\u00e3o internados\u2014medida que causa indigna\u00e7\u00e3o renovada. Outro barbeiro, Jo\u00e3o Pina, lidera novo golpe, dep\u00f5e Porf\u00edrio. Mas o padr\u00e3o repete-se: o novo governo tamb\u00e9m fortalece a Casa Verde, n\u00e3o a destr\u00f3i.<\/p>\n\n\n\n<p>Dona Evarista, esposa do alienista, sofre particular humilha\u00e7\u00e3o: ap\u00f3s noite mal dormida porque n\u00e3o conseguiu decidir qual roupa usar para festa, \u00e9 considerada pela marido como portadora de aliena\u00e7\u00e3o mental e internada. A mulher que compartilhou leito com o doutor, que suportou sua neglig\u00eancia emocional e dedica\u00e7\u00e3o obsessiva \u00e0 ci\u00eancia, descobre-se internada precisamente por incapacidade de tomar decis\u00e3o trivial.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto isso, a propor\u00e7\u00e3o de internados cresce exponencialmente. Logo 75% da popula\u00e7\u00e3o de Itagua\u00ed est\u00e1 dentro da Casa Verde. Vereadores, comerciantes, padre, mulher do alienista, amigos do alienista\u2014todos rotulados como loucos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 em momento de crise extrema que Bacamarte experimenta algo aproximado a epifania. Reformula sua teoria: e se a loucura n\u00e3o fosse aus\u00eancia de raz\u00e3o, mas excessivo equil\u00edbrio mental? E se os loucos fossem aqueles cujas mentes funcionam com perfei\u00e7\u00e3o? Liberta todos os internados novamente e come\u00e7a a aplicar nova teoriza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas essa terceira ou quarta teoria tamb\u00e9m falha. Bacamarte observa que ningu\u00e9m\u2014absolutamente ningu\u00e9m na vila\u2014possui mente perfeitamente equilibrada. Todos carregam doses de irracionalidade, v\u00edcio, contradi\u00e7\u00e3o. Todos est\u00e3o, em certo sentido, loucos.<\/p>\n\n\n\n<p>Exceto ele pr\u00f3prio.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s an\u00e1lise minuciosa de seu pr\u00f3prio estado mental, Bacamarte conclui que \u00e9 o \u00fanico indiv\u00edduo s\u00e3o, o \u00fanico cuja raz\u00e3o funciona sem falha. Conclus\u00e3o l\u00f3gica: se todos os outros est\u00e3o loucos e apenas ele \u00e9 s\u00e3o, logo ele, o \u00fanico diferente, \u00e9 o alienado verdadeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Com essa l\u00f3gica inabal\u00e1vel, Sim\u00e3o Bacamarte ordena sua pr\u00f3pria interna\u00e7\u00e3o na Casa Verde. Tranca-se nas depend\u00eancias do manic\u00f4mio, continuando seus estudos, mas agora como sujeito e objeto simult\u00e2neos da investiga\u00e7\u00e3o. Morre ali dezessete meses depois, v\u00edtima final de sua pr\u00f3pria ci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>O Legado:<\/p>\n\n\n\n<p><em>O Alienista<\/em> permanece obra de perturbadora atualidade porque questiona o que Machado nunca respondeu completamente: quem tem autoridade para definir normalidade? Qual \u00e9 a fronteira entre raz\u00e3o e loucura? E, crucialmente, o que acontece quando aqueles investidos de autoridade cient\u00edfica perdem a pr\u00f3pria b\u00fassola moral?<\/p>\n\n\n\n<p>O narrador machadiano nunca nos diz se Bacamarte realmente estava louco. Talvez estivesse. Talvez a sociedade de Itagua\u00ed estivesse. Talvez a loucura seja condi\u00e7\u00e3o humana universal, apenas disfar\u00e7ada de racionalidade pelas estruturas de poder que conseguem se impor.<\/p>\n\n\n\n<p>O que permanece inequ\u00edvoco \u00e9 a cr\u00edtica: o cientificismo positivista do s\u00e9culo XIX, t\u00e3o certo de suas verdades, t\u00e3o convicto de sua superioridade racional, produzia apenas patologiza\u00e7\u00e3o do diferente e encarceramento do questionador. E uma popula\u00e7\u00e3o inteira, por medo ou conveni\u00eancia, permitia tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>Machado de Assis nos deixa, com ironia que atravessa s\u00e9culos, a constata\u00e7\u00e3o amarga de que a loucura de um homem, quando revestida de autoridade e ci\u00eancia, pode enlouquecer coletivamente uma sociedade ou no fique em casa, seja na casa verde ou em suas pr\u00f3prias casas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sim\u00e3o Bacamarte \u00e9 um homem de ci\u00eancia respeitado, algu\u00e9m que viajou pela Europa e pelo Brasil consolidando reputa\u00e7\u00e3o como m\u00e9dico de primeira linha. Quando retorna \u00e0 pequena vila de Itagua\u00ed com essa aur\u00e9ola de conhecimento, traz consigo uma decis\u00e3o que marcar\u00e1 para sempre o destino daquela comunidade: dedicar-se ao estudo cient\u00edfico da aliena\u00e7\u00e3o mental\u2014aquilo que&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":28,"featured_media":7083,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-7080","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cidadenoar.com\/global\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7080","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cidadenoar.com\/global\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cidadenoar.com\/global\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cidadenoar.com\/global\/wp-json\/wp\/v2\/users\/28"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cidadenoar.com\/global\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7080"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/cidadenoar.com\/global\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7080\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7084,"href":"https:\/\/cidadenoar.com\/global\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7080\/revisions\/7084"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cidadenoar.com\/global\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7083"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cidadenoar.com\/global\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7080"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cidadenoar.com\/global\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7080"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cidadenoar.com\/global\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7080"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}