{"id":7264,"date":"2026-03-16T07:30:00","date_gmt":"2026-03-16T10:30:00","guid":{"rendered":"https:\/\/cidadenoar.com\/global\/?p=7264"},"modified":"2026-03-16T08:47:50","modified_gmt":"2026-03-16T11:47:50","slug":"a-tirania-das-ditaduras-eternas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cidadenoar.com\/global\/opiniao\/a-tirania-das-ditaduras-eternas\/","title":{"rendered":"A tirania das ditaduras &#8220;eternas&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p>Mikhail Bakunin, o anarquista russo nascido em 1814, foi o primeiro a farejar o cheiro de tirania no ar marxista \u2014 e disse isso na cara de Marx, com argumentos que, vistos de 2026, parecem profecia.<\/p>\n\n\n\n<p>Em&nbsp;<em>Statism and Anarchy<\/em>&nbsp;(1873), Bakunin escreveu: \u201cSe o proletariado for a classe dominante, a quem governar\u00e1? Deve haver outro proletariado sujeito a essa nova domina\u00e7\u00e3o, esse novo Estado\u201d. Ele via claro: a tal \u201cditadura do proletariado\u201d de Marx n\u00e3o era transi\u00e7\u00e3o para liberdade, mas troca \u2014 os \u201cintelectuais urbanos alem\u00e3es\u201d (o time Marx) no lugar dos nobres.<\/p>\n\n\n\n<p>Bakunin avisou que essa vanguarda nunca largaria o osso: \u201cMarxistas fingem que s\u00f3 a ditadura \u2014 claro, a deles \u2014 pode criar liberdade para o povo\u201d. Eles decidiriam quando o povo estaria \u201cpronto\u201d, e o povo esperaria eternamente. N\u00e3o era revolu\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea das massas; era golpe de elite que se eternizaria como \u201cclasse dominante prolet\u00e1ria\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo explodiu na Primeira Internacional (AIT, 1864\u20131876). Bakunin entra em 1868, trazendo sua Alian\u00e7a Internacional da Democracia Socialista \u2014 rede anarquista que defendia federa\u00e7\u00f5es livres, aboli\u00e7\u00e3o imediata do Estado, greves gerais e mil\u00edcias populares descentralizadas.\u200b\u200b<\/p>\n\n\n\n<p>Marx via nisso amea\u00e7a: Bakunin pregava fim do Estado j\u00e1, enquanto Marx queria um \u201cEstado prolet\u00e1rio\u201d forte para \u201csuprimir a burguesia\u201d. No Congresso de Haia (1872), Marx manobra para expulsar Bakunin e seu grupo por \u201cmanter organiza\u00e7\u00e3o secreta\u201d dentro da AIT \u2014 ironia, j\u00e1 que Marx controlava o Conselho Geral como ditador. A Internacional se parte: marxistas v\u00e3o para um lado, anarquistas fundam a AIT antiautorit\u00e1ria em Saint-Imier.\u200b\u200b<\/p>\n\n\n\n<p>Bakunin n\u00e3o se enganava: \u201cSegundo a teoria de Marx, o povo n\u00e3o deve destruir o Estado, mas refor\u00e7\u00e1-lo e torn\u00e1-lo mais forte\u201d. Ele previu o que veio: Lenin, Stalin, ditaduras eternas em nome do \u201cproletariado\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A pris\u00e3o infernal que Bakunin aguentou<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o de Dresden (1849), \u00e9 capturado na Sax\u00f4nia, condenado \u00e0 morte (comutada para pris\u00e3o perp\u00e9tua), extraditado para \u00c1ustria (Olm\u00fctz, onde fica acorrentado por meses), e finalmente entregue \u00e0 R\u00fassia em 1851.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Fortaleza de Pedro e Paulo (S\u00e3o Petersburgo), de 1851 a 1857:&nbsp;acorrentado de m\u00e3os e p\u00e9s \u00e0s paredes de pedra, com correntes pesadas e bolas de ferro nos p\u00e9s, em solit\u00e1ria \u00famida e escura. Condi\u00e7\u00f5es brutais: p\u00e3o mofado, \u00e1gua suja, interrogat\u00f3rios constantes. Quebrado fisicamente, escreve a \u201cConfiss\u00e3o\u201d ao tsar Nicolau I (1857), implorando miseric\u00f3rdia &#8211; documento controverso &#8211; onde admite erros e pede clem\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Exilado na Sib\u00e9ria at\u00e9 fugir em 1861 (via EUA e Europa) enquanto Marx e Engels usaram a Confiss\u00e3o para difamar Bakunin como \u201ctraidor\u201d, mas foi o tsarismo que o torturou (e talvez eles quem criaram a confiss\u00e3o).<\/p>\n\n\n\n<p>Bakunin odiava centraliza\u00e7\u00e3o e ele via o Estado marxista como m\u00e1quina de escravid\u00e3o nova, e acertou, URSS, China, Cuba viraram provas vivas.\u200b<\/p>\n\n\n\n<p>Bakunin denunciou o autoritarismo marxista antes de todo mundo, foi expulso por defender liberdade imediata, e pagou com correntes russas o pre\u00e7o de desafiar poderes.<\/p>\n\n\n\n<p>Ser\u00e1 que voc\u00ea v\u00ea semelhan\u00e7a com algo que acontece atualmente?<\/p>\n\n\n\n<p>Sua vis\u00e3o descentralizada (federa\u00e7\u00f5es livres, mil\u00edcias populares) continua viva em quem rejeita ditaduras \u201cprolet\u00e1rias\u201d. Ele viu o que Marx n\u00e3o quis ver ou seria ele viu o que Marx queria esconder e tantos outros at\u00e9 hoje querem esconder? E pensar que l\u00e1 atr\u00e1s quando ainda era \u201cconcep\u00e7\u00e3o\u201d j\u00e1 se tinha percebido a face ditatorial&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>P.S.:<\/p>\n\n\n\n<p>Pierre-Joseph Proudhon, primeiro autodeclarado anarquista, via a propriedade privada como &#8220;roubo&#8221; \u2014 n\u00e3o por abolir a posse leg\u00edtima do trabalhador sobre sua produ\u00e7\u00e3o, mas por condenar o monop\u00f3lio e a explora\u00e7\u00e3o sem trabalhar. Defendia o&nbsp;mutualismo: bancos populares com cr\u00e9dito gr\u00e1tis, cooperativas auto gestionadas, federa\u00e7\u00f5es volunt\u00e1rias de baixo para cima sem Estado centralizador, trocas justas pelo tempo de trabalho socialmente necess\u00e1rio. Rejeitava tanto o capitalismo parasit\u00e1rio quanto o socialismo autorit\u00e1rio de Marx, apostando na revolu\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea.<\/p>\n\n\n\n<p>Proudhon vs Marx: Quando Marx chega a Paris (1842), os dois viram rivais. Proudhon tenta alian\u00e7a no&nbsp;<em>Manifesto dos 60<\/em>&nbsp;(1848), mas Marx o ataca em&nbsp;<em>A Mis\u00e9ria da Filosofia<\/em>&nbsp;(1847): &#8220;Sr. Proudhon tem o azar de ser geralmente errado&#8221;. O n\u00f3: Marx queria&nbsp;Estado prolet\u00e1rio forte&nbsp;pra &#8220;suprimir a burguesia&#8221;; Proudhon via nisso&nbsp;novo despotismo. Resultado: anarquistas (Proudhon, depois Bakunin) v\u00e3o pra um lado; marxistas criam partidos de vanguarda que viram ditaduras eternas.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mikhail Bakunin, o anarquista russo nascido em 1814, foi o primeiro a farejar o cheiro de tirania no ar marxista \u2014 e disse isso na cara de Marx, com argumentos que, vistos de 2026, parecem profecia. Em&nbsp;Statism and Anarchy&nbsp;(1873), Bakunin escreveu: \u201cSe o proletariado for a classe dominante, a quem governar\u00e1? 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