{"id":7715,"date":"2026-06-01T07:30:00","date_gmt":"2026-06-01T10:30:00","guid":{"rendered":"https:\/\/cidadenoar.com\/global\/?p=7715"},"modified":"2026-05-24T15:00:11","modified_gmt":"2026-05-24T18:00:11","slug":"todo-ditador-da-historia-combateu-a-desinformacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cidadenoar.com\/global\/opiniao\/todo-ditador-da-historia-combateu-a-desinformacao\/","title":{"rendered":"Todo ditador da hist\u00f3ria combateu a desinforma\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o \u00e9 sobre o que \u00e9 falso. \u00c9 sobre o que incomoda. N\u00e3o \u00e9 sobre proteger o cidad\u00e3o da mentira. \u00c9 sobre proteger o poder da verdade. E a diferen\u00e7a entre essas duas coisas \u2014 por menor que pare\u00e7a num primeiro olhar \u2014 \u00e9 a diferen\u00e7a entre democracia e ditadura com boa assessoria de imprensa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Existe uma t\u00e9cnica milenar de controle narrativo que funciona com precis\u00e3o cir\u00fargica em qualquer \u00e9poca, em qualquer regime, em qualquer latitude: voc\u00ea n\u00e3o precisa proibir a informa\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea precisa desqualificar quem a produz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na Idade M\u00e9dia, chamavam de heresia. No s\u00e9culo XX, de propaganda inimiga. Nos anos recentes, descobriram um termo mais elegante, mais moderno, mais palat\u00e1vel para uma sociedade que se acha democr\u00e1tica: fake news.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O mecanismo \u00e9 sempre o mesmo. Quando o poder controla a narrativa, a informa\u00e7\u00e3o que o confirma \u00e9 &#8220;jornalismo s\u00e9rio&#8221;. A informa\u00e7\u00e3o que o questiona \u00e9 &#8220;desinforma\u00e7\u00e3o&#8221;. A cr\u00edtica que o incomoda \u00e9 &#8220;discurso de \u00f3dio&#8221;. A d\u00favida que o desafia \u00e9 &#8220;ataque \u00e0s institui\u00e7\u00f5es&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Simples. Eficiente. Quase genial na sua brutalidade disfar\u00e7ada de prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 chamado de &#8220;combate \u00e0 desinforma\u00e7\u00e3o&#8221; a estrutura que monitora redes sociais, produz relat\u00f3rios sobre conte\u00fados pol\u00edticos e serve de base para decis\u00f5es de remo\u00e7\u00e3o de perfis e postagens. Em bom portugu\u00eas: um tribunal que julga tamb\u00e9m investiga, tamb\u00e9m acusa, tamb\u00e9m decide o que \u00e9 verdade. Separa\u00e7\u00e3o dos poderes? <strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes que voc\u00ea ache que o problema \u00e9 novo, que nasceu com a internet, com as redes sociais ou com qualquer tecnologia recente, preciso te fazer um passeio r\u00e1pido pela hist\u00f3ria do controle da informa\u00e7\u00e3o. Porque o que muda \u00e9 o ve\u00edculo. O que nunca muda \u00e9 quem segura o microfone \u2014 e por qu\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes da internet, era a televis\u00e3o o Olimpo da verdade. Os grandes jornalistas de bancada \u2014 aqueles de terno bem passado, cabelo impec\u00e1vel e tom solene de quem acabou de receber revela\u00e7\u00e3o divina \u2014 eram os sacerdotes do fato. O que eles diziam era real. O que eles ignoravam n\u00e3o existia. E o que os patrocinadores n\u00e3o queriam que voc\u00ea soubesse simplesmente n\u00e3o entrava no hor\u00e1rio nobre. N\u00e3o era mentira declarada \u2014 era curadoria cuidadosa da realidade, feita por quem pagava os sal\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes da televis\u00e3o, era o r\u00e1dio. E no r\u00e1dio, o jab\u00e1 \u2014 aquela pr\u00e1tica honesta de pagar para tocar, para falar, para elogiar \u2014 era a moeda corrente do &#8220;jornalismo&#8221;. O patrocinador comprava n\u00e3o apenas o espa\u00e7o comercial, mas o tom da cobertura, a \u00eanfase da not\u00edcia, o sil\u00eancio conveniente sobre o que n\u00e3o convinha mostrar. A voz no r\u00e1dio tinha a autoridade de Deus numa \u00e9poca em que a maioria da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o sabia ler. Quem controlava a frequ\u00eancia controlava a percep\u00e7\u00e3o de realidade de milh\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E antes do r\u00e1dio? Os jornais impressos, onde a &#8220;liberdade de imprensa&#8221; pertencia a quem tinha a gr\u00e1fica. Eram cinco, dez, quinze fam\u00edlias no Brasil inteiro que decidiam o que o pa\u00eds sabia. Capazes da verdade, capatazes da narrativa. O jornal do coronel dizia o que o coronel queria. O jornal do industrial protegia o industrial. E o cidad\u00e3o comum \u2014 analfabeto na sua maioria, isolado geograficamente, sem nenhum meio de verifica\u00e7\u00e3o \u2014 engolia o que lhe serviam e chamava isso de informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A &#8220;fake news&#8221; de hoje tem pedigree hist\u00f3rico, s\u00f3 mudou de endere\u00e7o. Mas o grande problema \u00e9 que as \u201cm\u00eddias tradicionais\u201d perderem espa\u00e7o e a \u201cnova m\u00eddia\u201d abriu espa\u00e7o para milh\u00f5es de \u201cjornalistas\u201d poderem falar e com um pre\u00e7o muito mais em conta para que outras empresas tamb\u00e9m entrassem no jogo do patroc\u00ednio, n\u00e3o apenas as grandes empresas.<strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ou seja, pela primeira vez na hist\u00f3ria, qualquer pessoa com um celular poderia publicar, questionar, contradizer, investigar e distribuir informa\u00e7\u00e3o sem passar pelo filtro dos donos da gr\u00e1fica, da frequ\u00eancia de r\u00e1dio ou da concess\u00e3o televisiva. E isso, para o poder, foi uma cat\u00e1strofe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em agosto de 2024, o aplicativo X foi suspenso no Brasil por decis\u00e3o de um entre 200 milh\u00f5es. N\u00e3o importa qual lado do espectro pol\u00edtico voc\u00ea ocupa \u2014 esse fato deveria te preocupar. Porque hoje bloqueiam quem voc\u00ea n\u00e3o gosta. Amanh\u00e3 podem bloquear quem voc\u00ea \u00e9&#8230; afinal, \u201ca pol\u00edtica igual as nuvens v\u00e3o para o lado que o vento sopra\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Voc\u00ea pode ter sido investigado sem saber. Seus dados podem ter sido entregues sem seu consentimento. Um document\u00e1rio com conte\u00fado cr\u00edtico ao processo eleitoral foi bloqueado antes do lan\u00e7amento \u2014 o que configura censura pr\u00e9via. Censura pr\u00e9via. Proibi\u00e7\u00e3o de algo que ainda nem havia sido publicado. Na constitui\u00e7\u00e3o que esse mesmo poder jura defender existe um artigo \u2014 o quinto, inciso IX \u2014 que diz ser livre a express\u00e3o da atividade intelectual e que a censura n\u00e3o ser\u00e1 tolerada, ser\u00e1?<strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quem decide o que \u00e9 fake news? O pr\u00f3prio TSE criou uma estrutura interna de &#8220;combate \u00e0 desinforma\u00e7\u00e3o&#8221; que produz relat\u00f3rios e alimenta diretamente decis\u00f5es da corte. Ou seja: o mesmo \u00f3rg\u00e3o que investiga, que processa, que condena e que define o que \u00e9 verdade \u2014 \u00e9 o mesmo \u00f3rg\u00e3o que decide o que voc\u00ea pode ou n\u00e3o pode ler, publicar e compartilhar. Isso tem nome. Na hist\u00f3ria, esse arranjo sempre teve o mesmo nome, independente do uniforme que usava, do partido que representava ou da bandeira que hasteava.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Existe uma hipocrisia que permeia o debate sobre fake news no Brasil que \u00e9 quase bela na sua aud\u00e1cia: Os mesmos que durante d\u00e9cadas controlaram o fluxo de informa\u00e7\u00e3o pelo monop\u00f3lio da TV, do r\u00e1dio e dos jornais impressos \u2014 que decidiram o que o povo sabia, o que ignorava, quem era her\u00f3i e quem era vil\u00e3o \u2014 s\u00e3o hoje os mais fervorosos defensores do &#8220;combate \u00e0 desinforma\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E o mais fascinante? Funciona. Uma parcela significativa da popula\u00e7\u00e3o acredita que o problema da informa\u00e7\u00e3o \u00e9 novo, que surgiu com as redes sociais, que antes havia um para\u00edso de jornalismo honesto e respons\u00e1vel \u2014 e que agora \u00e9 preciso restaurar essa era dourada que, convenhamos, nunca existiu.<strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aqui est\u00e1 o que ningu\u00e9m quer admitir: o problema nunca foi a mentira. O problema sempre foi quem controla a distin\u00e7\u00e3o entre mentira e verdade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Toda censura da hist\u00f3ria foi justificada. Toda. Sem exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pergunta que voc\u00ea deveria fazer \u2014 n\u00e3o \u00e9 &#8220;essa informa\u00e7\u00e3o \u00e9 verdadeira ou falsa?&#8221; A pergunta \u00e9:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quem lucra com o fato de voc\u00ea n\u00e3o poder fazer essa pergunta?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o \u00e9 sobre o que \u00e9 falso. \u00c9 sobre o que incomoda. N\u00e3o \u00e9 sobre proteger o cidad\u00e3o da mentira. \u00c9 sobre proteger o poder da verdade. 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