{"id":8037,"date":"2026-09-07T07:30:00","date_gmt":"2026-09-07T10:30:00","guid":{"rendered":"https:\/\/cidadenoar.com\/global\/?p=8037"},"modified":"2026-09-08T13:14:41","modified_gmt":"2026-09-08T16:14:41","slug":"sete-de-setembro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cidadenoar.com\/global\/opiniao\/sete-de-setembro\/","title":{"rendered":"Sete de Setembro"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Existe uma narrativa conveniente, ensinada em escolas e repetida em redes sociais com a certeza de quem nunca questionou nada, de que Portugal saqueou o Brasil, roubou todo o ouro, e \u00e9 por isso que somos pobres at\u00e9 hoje. Bonita narrativa. Tem apenas um defeito fatal: \u00e9 falsa. Portugal cobrava o Quinto \u2014 20% sobre o ouro extra\u00eddo e fundido. Elevado? Sem d\u00favida. Injusto pelos padr\u00f5es de hoje? Talvez. Mas era a regra do jogo do s\u00e9culo XVIII. E os restantes 80% ficavam no Brasil nas m\u00e3os dos mineradores, das elites coloniais, dos comerciantes e das Igrejas que constru\u00edam com ouro em p\u00f3.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O principal imposto era o quinto, 20% sobre o ouro extra\u00eddo e fundido. Considerando o balan\u00e7o completo, Portugal levou ouro, a\u00e7\u00facar e outros produtos, mas deixou uma estrutura que permitiu que o Brasil se tornasse um pa\u00eds continental e culturalmente rico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E tem mais: a Gazeta do Povo calculou que o gasto com funcionalismo p\u00fablico no Brasil, em apenas um ano de 2024, somou cerca de R$ 1,5 trilh\u00e3o o que em ouro representa mais de quatro vezes todo o metal produzido no Brasil durante todo o per\u00edodo colonial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Portugal cobrava 20% em tr\u00eas s\u00e9culos de col\u00f4nia. O governo brasileiro de hoje consome em sal\u00e1rios de funcion\u00e1rios p\u00fablicos, em um \u00fanico ano, mais de quatro vezes todo o ouro que Portugal levou em trezentos anos de coloniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mesmo com o ouro levado para a Europa, o que mais pesa nessa balan\u00e7a de prosperidade econ\u00f4mica \u00e9 o que os governos brasileiros fizeram ou deixaram de fazer ao longo dos \u00faltimos dois s\u00e9culos, quando o Brasil deixou de ser col\u00f4nia portuguesa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quem saqueou o Brasil n\u00e3o foi Portugal. Foram os dois s\u00e9culos de governos brasileiros que substitu\u00edram a Coroa lusitana cobrando mais, devolvendo menos e chamando isso de progresso. Portugal pelo menos construiu cidades, portos, estradas, universidades.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O quinto era imposto. Imposto alto, colonialista, da \u00e9poca. Mas imposto tem recibo. O que o governo brasileiro faz hoje n\u00e3o tem nem isso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Reservado e melanc\u00f3lico, Dom Pedro II era diferente em tudo de seu pai impetuoso, tendo permanecido no poder por quase cinquenta anos em um dos reinados mais longos da hist\u00f3ria. Sem ter se tornado obcecado pelo poder que ele negligenciava (parece fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica comparado ao que temos hoje) em favor dos estudos Dom Pedro II sabia como se afirmar e equilibrar for\u00e7as pol\u00edticas opostas, conduzindo o pa\u00eds para um per\u00edodo de estabilidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dom Pedro II falava mais de dez idiomas. Correspondia-se com Victor Hugo, com Louis Pasteur, com Charles Darwin, com Henry Wadsworth Longfellow a quem traduziu para o portugu\u00eas. Foi o primeiro chefe de Estado do mundo a usar o telefone, quando Alexander Graham Bell lhe apresentou o invento em 1876. Pagava do pr\u00f3prio bolso pesquisadores e cientistas. Financiou expedi\u00e7\u00f5es. Fundou institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Defensor dos ideais republicanos, imperador-cidad\u00e3o, abolicionista reticente dentro de uma estrutura escravocrata, intelectual e s\u00e1bio em um pa\u00eds em que 80% da popula\u00e7\u00e3o ainda era analfabeta. No exame dos registros e manifesta\u00e7\u00f5es de tantos memorialistas e historiadores, observa-se hoje a consolida\u00e7\u00e3o de um ju\u00edzo favor\u00e1vel a Dom Pedro II, como um homem \u00e9tico, erudito, pesquisador, imbu\u00eddo de sentido de miss\u00e3o, cujo comportamento austero marcou seus quase cinquenta anos \u00e0 frente do Imp\u00e9rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um imperador que defendia a rep\u00fablica. Que queria a aboli\u00e7\u00e3o. Que vivia austeramente enquanto dirigia o pa\u00eds mais rico das Am\u00e9ricas. Que n\u00e3o se agarrava ao poder. Que estudava enquanto governava.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E o povo sabia disso. Os brasileiros se mantiveram apegados \u00e0 figura do imperador popular a quem consideravam um her\u00f3i e continuaram a v\u00ea-lo como o Pai do Povo personificado. Esta vis\u00e3o era ainda mais forte entre os brasileiros negros ou de ascend\u00eancia africana, que acreditavam que a monarquia representava a liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A vis\u00e3o positiva do imperador e a nostalgia de seu reinado cresceram ainda mais quando o Brasil rapidamente entrou em uma s\u00e9rie de crises econ\u00f4micas e pol\u00edticas que a popula\u00e7\u00e3o creditou \u00e0 derrubada do imperador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que aconteceu na madrugada do 17 de novembro de 1889 foi simples e brutal: Dom Pedro II, a Imperatriz Teresa Cristina, a Princesa Isabel e outros membros da fam\u00edlia embarcaram no navio Alagoas, rumo \u00e0 Europa. Apesar de ter governado o Brasil por quase cinco d\u00e9cadas, Dom Pedro II aceitou seu ex\u00edlio com resigna\u00e7\u00e3o. Em sua \u00faltima mensagem antes de partir, teria dito: &#8220;Se assim \u00e9 a vontade da na\u00e7\u00e3o, parto sem desgosto.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A vontade da na\u00e7\u00e3o. Que na\u00e7\u00e3o? A na\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi consultada. Nenhum plebiscito. Nenhuma elei\u00e7\u00e3o. Nenhum voto. Um punhado de militares decidiu o destino de quatorze milh\u00f5es de brasileiros em uma madrugada \u2014 e chamou isso de Rep\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O povo brasileiro n\u00e3o participou desse processo. A mudan\u00e7a de regime foi decidida e executada por grupos pol\u00edticos e militares, sem vota\u00e7\u00e3o ou consulta popular. Na manh\u00e3 do 15 de novembro, tropas do Ex\u00e9rcito marcharam pelas ruas do Rio de Janeiro e cercaram o Quartel-General do Ex\u00e9rcito. N\u00e3o foi Revolu\u00e7\u00e3o. Foi golpe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E depois veio Floriano Peixoto, o &#8220;Marechal de Ferro&#8221;, que assumiu a presid\u00eancia ap\u00f3s a ren\u00fancia (ou seria outro golpe) de Deodoro e governou com punho de ferro entre 1891 e 1894. Suprimiu a Revolu\u00e7\u00e3o Federalista no Sul com uma brutalidade que chocaria qualquer jurista moderno. Mandou fuzilamentos sum\u00e1rios. Perseguiu opositores. Fechou jornais. Ignorou a Constitui\u00e7\u00e3o que acabara de ser promulgada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Rep\u00fablica nasceu em golpe e foi consolidada com sangue. E os livros did\u00e1ticos chamam isso de &#8220;consolida\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 muitas interpreta\u00e7\u00f5es entre os estudiosos do per\u00edodo sobre o sentido do 15 de novembro de 1889, mas quase todos parecem concordar que se tratou de um movimento do Ex\u00e9rcito, com o apoio das elites intelectuais, igrejas e latifundi\u00e1rios, sem a participa\u00e7\u00e3o da maioria esmagadora da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Elites intelectuais, igrejas e latifundi\u00e1rios. Tr\u00eas grupos que, curiosamente, tinham muito a ganhar com a mudan\u00e7a \u2014 e que passaram os cem anos seguintes convencendo o povo de que a mudan\u00e7a havia sido feita por ele e para ele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dom Pedro II morreu em Paris, em 5 de dezembro de 1891 \u2014 dois anos ap\u00f3s o ex\u00edlio. Sozinho, hospedado num hotel, depois que a Imperatriz Teresa Cristina morreu em dezembro de 1889, menos de um m\u00eas ap\u00f3s deixar o Brasil. Ela nunca se recuperou do choque. Pedro de Alc\u00e2ntara, com 66 anos, seguiu sozinho para Paris, ficando hospedado no Hotel Bedford, onde passava o dia lendo e estudando.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lendo e estudando. Exilado. Sem amargura p\u00fablica declarada. Com a mesma dignidade com que governou por 58 anos um pa\u00eds que n\u00e3o soube o que tinha enquanto tinha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Portugal cobrava 20% e construiu um pa\u00eds. O Brasil cobra muito mais do que isso (praticamente o dobro). Deodoro dep\u00f4s o maior estadista que o Brasil j\u00e1 teve e renunciou nove meses depois sob press\u00e3o pol\u00edtica. Floriano consolidou a rep\u00fablica fuzilando oposi\u00e7\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se Dom Pedro II fosse candidato hoje, com sua biografia real, austero, culto, abolicionista, que negligenciava o poder em favor dos estudos, que falava dez idiomas e se correspondia com Darwin, seria eleito? Provavelmente n\u00e3o. N\u00e3o promete dar nada para ningu\u00e9m. N\u00e3o tem populismo suficiente para sobreviver ao primeiro turno.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Existe uma narrativa conveniente, ensinada em escolas e repetida em redes sociais com a certeza de quem nunca questionou nada, de que Portugal saqueou o Brasil, roubou todo o ouro, e \u00e9 por isso que somos pobres at\u00e9 hoje. Bonita narrativa. Tem apenas um defeito fatal: \u00e9 falsa. Portugal cobrava o Quinto \u2014 20% sobre&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":28,"featured_media":8038,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-8037","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cidadenoar.com\/global\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8037","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cidadenoar.com\/global\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cidadenoar.com\/global\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cidadenoar.com\/global\/wp-json\/wp\/v2\/users\/28"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cidadenoar.com\/global\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8037"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/cidadenoar.com\/global\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8037\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8039,"href":"https:\/\/cidadenoar.com\/global\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8037\/revisions\/8039"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cidadenoar.com\/global\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8038"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cidadenoar.com\/global\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8037"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cidadenoar.com\/global\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8037"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cidadenoar.com\/global\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8037"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}