“Emprego não resolve dependência química e falha como política para população de rua”, alerta ex deputado

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A crescente adoção de programas de empregabilidade voltados à população em situação de rua tem ganhado espaço em diversas cidades brasileiras. Embora essas iniciativas sejam frequentemente apresentadas como soluções humanitárias e eficazes, o ex-secretário municipal de Assistência Social de Florianópolis, Bruno Souza, faz um alerta: a estratégia pode estar baseada em um diagnóstico equivocado do problema.

Com experiência direta na gestão da política pública para essa população, Bruno Souza afirma que há um descompasso entre a proposta e a realidade enfrentada nas ruas. “A ideia de oferecer emprego é emocionalmente sedutora, mas confunde boas intenções com bons resultados”, afirma. Segundo ele, foi justamente a vivência à frente da assistência social da capital catarinense que evidenciou os limites desse tipo de iniciativa e a necessidade de enfrentar causas mais profundas.

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Dados recentes reforçam esse cenário. Segundo levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o Brasil tinha cerca de 281 mil pessoas em situação de rua em 2022, um aumento de mais de 200% em relação a 2012. Dados mais recentes do Cadastro Único do Governo Federal (CadÚnico) apontam que essa população ultrapassou 335 mil pessoas entre 2023 e 2025, evidenciando crescimento contínuo e a dificuldade de mensurar com precisão a dimensão do problema.

Em Florianópolis, a situação também chama atenção. De acordo com dados reunidos pelo Recuperar Floripa, plataforma criada por Bruno Souza, a capital catarinense já ultrapassa 4.500 pessoas vivendo nas ruas. O número é considerado elevado quando comparado a outras cidades do estado: Joinville, por exemplo, que possui cerca de 100 mil habitantes a mais, registra aproximadamente 600 pessoas nessa condição.

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Na avaliação de Bruno Souza, o principal fator que mantém essas pessoas nas ruas não é a falta de oportunidade de trabalho, mas sim a dependência química. “Ignorar esse fato não é compaixão, é autoengano”, destaca.

Ele explica que a dependência severa, especialmente de drogas como o crack, compromete a capacidade de manter uma rotina profissional estável. “Pode até haver adesão inicial ao emprego, mas a lógica da dependência acaba prevalecendo. O resultado são faltas recorrentes, abandono e conflitos — não por escolha, mas por incapacidade objetiva”, diz.

O ex-secretário — que também foi deputado estadual entre 2019 e 2023 e vereador em Florianópolis — chama atenção para a falta de transparência nos resultados desses programas. “Anuncia-se quantas pessoas foram contratadas, mas raramente quantas permanecem empregadas após poucas semanas. Isso não é descuido — é porque os números não sustentam a narrativa”, afirma.

Estudos do próprio Ipea e de pesquisadores da área indicam que transtornos relacionados ao uso de substâncias estão presentes em uma parcela significativa da população em situação de rua, podendo ultrapassar 60% dos casos em algumas capitais.

Para Bruno Souza, a continuidade dessas políticas está ligada mais à conveniência política do que à eficácia. “Dar emprego gera manchetes positivas e capital simbólico imediato. Já enfrentar a dependência química exige decisões difíceis, como internação e medidas que enfrentam resistência ideológica”, avalia.

Ele argumenta que a lógica eleitoral favorece soluções de curto prazo. “Vale mais parecer que se está fazendo algo do que fazer o que realmente funciona. O problema é que isso adia as respostas necessárias e agrava a situação no longo prazo”, afirma.

Bruno Souza reforça que a crítica não significa falta de empatia, mas sim a necessidade de encarar o problema com realismo. “Levar a situação a sério é o primeiro gesto de respeito com quem vive nas ruas. Sem diagnóstico correto, não há tratamento possível”, conclui.

Avanco da populacao de rua reforca debate sobre solucoes mais eficazes

Avanço da população de rua reforça debate sobre soluções mais eficazes (Foto: Freepik)

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