Ontem, 16 de agosto, Marcelo Drummond Nova completou 75 anos.
Setenta e cinco. Número que em qualquer outro artista brasileiro seria celebrado com especial de TV, homenagem da Globo ou um documentário emocionante com depoimentos de pessoas que o chamaram de lenda enquanto tentavam silenciá-lo.
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Quero fazer parte!No caso de Marcelo Nova, provavelmente vai ter show, uma boa dose de ironia, talvez alguma declaração que vai virar manchete amanhã mesmo, e a satisfação específica de quem chegou aos 75 tendo feito exatamente o que quis, sem ajustar o microfone para agradar a plateia.
Marcelo Drummond Nova nasceu em Salvador, na Bahia, no dia 16 de agosto de 1951. Numa época em que o rock ainda estava sendo inventado na América e chegava ao Brasil como contrabando sonoro, um menino começou a aprender violão aos quatro anos de idade. Não era talento precoce. Era fome. A fome específica de quem nasce sabendo que tem algo dentro que precisa sair e que o mundo convencional não tem espaço suficiente para conter.
Em 1966, aos 15 anos, foi expulso do Colégio Antônio Vieira junto com outros colegas — revelando o temperamento rebelde que seria a marca de toda sua vida artística. Expulso aos 15. Alguns chamam de problema. Outros reconhecem como sinal de que determinadas estruturas simplesmente não foram feitas para determinadas pessoas.
Em 1978, começou a trabalhar na Rádio Aratu em Salvador, onde durante quatro anos produziu e apresentou o programa Rock Special — provavelmente o primeiro a tocar punk rock no Brasil.
Em 1980, montou o grupo baiano de punk rock Camisa de Vênus, do qual passou a ser vocalista e principal compositor. Em 1983, o grupo fez show para mais de 20 mil pessoas em Salvador — tendo gravado apenas um compacto. Vinte mil pessoas. Sem disco. Com o Camisa de Vênus, foram 11 discos lançados. O último, “Agulha no Palheiro”, chegou em 2021. Quatro décadas de uma banda que nunca deveria ter durado tanto — e durou exatamente porque nunca tentou durar.
O primeiro álbum ao vivo “Viva”, depois o primeiro álbum duplo do rock brasileiro foi “Duplo Sentido”. O primeiro disco totalmente acústico na história do rock nacional também teve dedo de Marcelo Nova em “Blackout”. E para provar como não cansa de ser pioneiro, teve também o primeiro Blu-ray do rock nacional, “Hoje no Bolshoi”.
Tudo isso numa carreira que a mídia mainstream nunca soube muito bem onde encaixar, porque não encaixava em nenhuma caixinha disponível. E essa incapacidade de encaixar nunca foi limitação. Foi sempre a maior prova de originalidade.
Existe uma colaboração na história do rock brasileiro que poucos países tiveram o privilégio de presenciar: dois gênios reconhecendo um ao outro sem competição, sem vaidade de território.
Em 1984, durante um show do Camisa de Vênus no Circo Voador, a banda foi avisada que Raul Seixas viria assisti-los e queria conhecê-los. O que aconteceu foi uma festa com o Camisa de Vênus e Raul Seixas tocando covers de clássicos do rock para quem compareceu ao show.
Dali nasceu uma amizade que resultaria em algo maior. Começou com uma música, Muita Estrela, Pouca Constelação, mas foi em 1989, que veio a série de shows e o álbum “A Panela do Diabo”, que rendeu disco de ouro com mais de 150 mil cópias vendidas. Era o último disco de Raul, e graças a Marcelo Raul morreu “no palco e não escondido ou esquecido”.
O Santo Graal é o Galope do Tempo, álbum que possui um espaço de destaque para os apreciadores de Marceleza, e para os colecionadores também tem o livro.
12 fêmeas e sua parceria com o guitarrista e simplesmente seu filho Drake ganham uma forma diferente, que seria apenas um grande início de uma grande história…
Marcelo Nova retomou sua carreira solo em 2023 com o álbum “As Cartas Que Eu Nunca Enviei”. Com 12 faixas, o trabalho saiu tanto nas plataformas digitais quanto em formato físico em CD. A produção ficou a cargo do cantor em parceria com seu filho Drake Nova. E agora em 2026 novidades já estão sendo lançadas…
Outra curiosidade, no Dia do Rock de 2021, ele foi convidado para dar entrevista na TV Bahia. Manifestou-se com veemência a favor da individualidade, do direito inegável ao cidadão de ir e vir, da liberdade. E, depois de dois minutos e vinte segundos, foi tirado do ar. Ninguém o contestou durante a entrevista. Ninguém o interpelou. Simplesmente foi tirado do ar — na tal democracia que essa gente da consciência social vive enaltecendo.
O que ele disse foi: “Para um sujeito como eu, prestes a fazer 70 anos de idade e com 40 anos de carreira, isso não serve pra mim. Eu fiz minhas regras, eu faço meu caminho, eu não deixo que governadores nem prefeitos, nem presidentes, ninguém manda em Marcelão.” “Eu estou pouco me lixando para like e para dislike. Não represento direita, não represento esquerda, não sou filiado a nenhum partido político. Agora, não abro mão de expressar a minha opinião de cidadão.”
Contabilizando a carreira solo e o Camisa de Vênus, são 22 álbuns que levam o nome de Nova — e inovação nunca foi um problema. Vinte e dois álbuns. Quarenta e cinco anos de carreira. Uma banda que sobreviveu a separações, reuniões, transformações culturais, ditadura, redemocratização, internet, streaming e cancelamento — e continua aqui.
Não é a discografia — embora ela seja extraordinária. Não são os shows — embora sejam lendários. Não são as frases polêmicas — embora sejam muitas e deliciosas.
O que Marcelo Nova nos deixa é algo mais difícil de mensurar e mais fácil de sentir: a prova viva de que é possível atravessar 75 anos neste país, nesta indústria, nesta cultura que devora seus filhos antes que cresçam demais — e chegar do outro lado inteiro. Com a voz, a opinião, o estilo intacto.
Ah, o texto foi curto, reduzido, chega a ser pobre, tem tantas outras histórias, tais como com Eric Burdon, Marianne etc etc etc… em outro momento continuemos…
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