Em junho de 2026, He-Man voltou ao cinema e uma geração inteira de brasileiros que cresceu colada no chão da sala, a um metro da televisão e os olhos arregalados, deve ir ao cinema com aquela mistura específica de nostalgia e terror (se transformaram algo sagrado em mais um produto descartável da indústria do entretenimento). Porque He-Man não era um desenho. Era uma aula.
No fim de cada episódio, He-Man deixava lições de moral para a garotada. Explícita. Direta. Sem vergonha de ser didático.
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Quero fazer parte!O Príncipe Adam tirava a máscara, olhava para a câmera e dizia algo sobre amizade, coragem, honestidade, responsabilidade. Simples assim. Sem relativismo. Sem “depende do ponto de vista”. Sem “existem muitas formas de encarar essa situação”. O certo era certo. O errado era errado. O mal tinha rosto — chamava-se Esqueleto — e devia ser combatido.
E a criança absorvia isso. Não porque era obrigada. Porque queria continuar assistindo ao herói que admirava. Isso é pedagogia de alto nível. Embrulhar o ensinamento em entretenimento de qualidade tão alta que o receptor não percebe que está aprendendo. Os educadores pagam fortunas em cursos para aprender o que os criadores de He-Man faziam instintivamente há décadas.
He-Man ensinava que poder não é privilégio — é responsabilidade. O Príncipe Adam podia ser He-Man a qualquer momento. Escolhia não revelar para proteger quem amava. Força com propósito. Não ostentação. Não arrogância. Serviço.
ThunderCats falava sobre a importância do trabalho em equipe, além de dar lições sobre respeito. Lion-O era jovem, impulsivo, às vezes errava. E aprendia com os erros na frente de todos, sem que isso o destruísse. Liderança como aprendizado contínuo, não como perfeição inata.
Cavaleiros do Zodíaco ensinava que existem coisas que valem mais do que a própria vida — e que morrer por um ideal é mais honroso do que viver em covardia. Pesado demais para criança? Talvez. Mas era exatamente esse peso que fazia a série inesquecível e que criou adultos capazes de entender que algumas batalhas existem e precisam ser travadas.
Entre outros desenhos… até que então algo aconteceu, não de repente — essas coisas nunca acontecem de repente. Foi gradual, quase imperceptível, como a erosão que só aparece quando você olha para a rocha depois de anos.
Os desenhos pararam de ter lições. Pararam de ter vilões claros. Pararam de ter heróis que serviam de modelo. Pararam de acreditar que criança merece ser tratada com seriedade moral.
E começaram a entregar apenas estímulo. Movimento rápido, cores berrantes, humor sem profundidade, personagens sem caráter, conflitos sem consequência. O equivalente audiovisual do açúcar refinado — gostoso na hora, destrutivo no longo prazo, viciante por design.
O resultado está na sua frente. Uma geração que cresceu assistindo conteúdo que não exigia nada deles — nenhum valor para admirar, nenhum herói para imitar, nenhuma lição para guardar — e que hoje não sabe o que admirar, o que imitar, o que guardar.
Não é coincidência. É consequência. Boa parte do que se produz hoje para crianças é lixo embrulhado em linguagem progressista.
Personagens sem identidade definida — porque ter caráter forte pode “oprimir” quem não tem. Conflitos sem resolução clara — porque dizer que o mal é o mal é “simplista”. Heróis sem força — porque força é “problemática”. Vilões humanizados ao ponto de virarem vítimas — porque responsabilizar é “cruel”.
O resultado é um conteúdo que não inspira, não forma, não desafia. Apenas ocupa o tempo da criança enquanto os pais trabalham. Babá digital com pretensão filosófica.
He-Man era musculoso, destemido, moralmente sólido e combatia o mal com poder e convicção. Hoje esse personagem provavelmente precisaria de dez sessões de terapia para processar o trauma de ter que lutar contra o Esqueleto, quatro reuniões para discutir se a força física reforça padrões tóxicos de masculinidade, e um episódio inteiro dedicado a entender o ponto de vista do vilão.
E a criança assistiria a isso e aprenderia o quê, exatamente? Quando uma geração inteira sente nostalgia de desenhos animados de quarenta anos atrás com uma intensidade que não sente por quase nada do presente, isso não é romantização do passado. É o instinto reconhecendo que algo essencial foi perdido no caminho.
O lançamento do filme He-Man representa a volta de uma das franquias mais icônicas dos anos 80 ao centro das conversas sobre nostalgia. Por que pessoas de quarenta, cinquenta anos ficam com os olhos brilhando ao ouvir a abertura?
Porque esses desenhos trataram a infância delas com respeito. Entregaram personagens que valiam a pena ser admirados. Apresentaram um mundo onde o certo e o errado existiam, onde a coragem tinha valor, onde a lealdade importava, onde o sacrifício pelo bem comum era glorificado — não problematizado.
No fim de cada episódio, o Príncipe Adam olhava para a câmera e dizia algo que você jamais vai ouvir em conteúdo infantil de 2026. Dizia a verdade.
Dizia que o certo existe. Dizia que você é capaz. Dizia que as escolhas têm consequências. Dizia que ser bom é uma decisão que se toma todo dia, não uma condição que se recebe por herança. Em vinte segundos, depois de uma batalha épica em Eternia, entregava mais formação de caráter do que muitos pais conseguem em um mês.
Bom… quanto ao filme… esse eu deixo com vocês… oremos…
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