Novo Ano

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Meia-noite de 31 de dezembro. O céu explode em cores, as taças tilintam, estranhos se abraçam como se fossem irmãos. E ali, naquele instante preciso, milhões de pessoas acreditam — genuinamente acreditam — que tudo vai mudar. Porque virou o calendário. E fazemos isso há 4 mil anos.

Os mesopotâmios, lá em 2000 a.C. não celebravam em janeiro porque janeiro não existia para eles. Festejavam em março, quando o inverno acabava e a primavera explodia. Era concreto: terra morta virando vida, fome virando abundância. A gratidão deles tinha endereço: “obrigado por não termos morrido de fome esse ano”. ​

Júlio César, sempre pragmático, decidiu organizar essa bagunça em 46 a.C. e escolheu janeiro por causa de Jano, o deus de duas caras — uma olhando para trás, outra para frente. Não foi acidente. Foi genialidade simbólica. Porque é exatamente isso que fazemos na virada: um balanço entre agradecimento e arrependimento e da esperança.

Foi o Papa Gregório XIII que fechou no século XVI, e desde então o mundo ocidental inteiro parou na mesma noite.

Por qual motivo precisamos desse ritual?

Porque precisamos fechar capítulos. Sem esses marcadores temporais, a vida vira um borrão contínuo de frustrações acumuladas e expectativas adiadas indefinidamente.

O Ano Novo é o maior ponto final que temos. É quando a humanidade inteira concorda em resetar, em dar aquela piscada e dizer: “Ok, agora é outro filme”. É ilusão? Claro. Mas é a ilusão que nos mantém funcionais. É o placebo que realmente funciona porque acreditamos nele coletivamente.

Gratidão pelo que passou — mesmo que tenha sido um ano ruim, pelo menos sobrevivemos. Esperança pelo que vem — mesmo sabendo que talvez iremos repetir 80% dos mesmos erros.

Toda cultura desenvolveu seus rituais de limpeza para a virada.

No Brasil, pulamos sete ondas para “limpar as energias”. Na Tailândia, jogam água uns nos outros no Songkran. No Equador, queimam bonecos representando o ano velho. No Japão, fazem uma faxina ritual chamada “osoji” antes da virada.

Percebe o padrão? Não importa a longitude ou latitude: todo mundo quer se purificar antes de recomeçar. É como se, simbolicamente, pudéssemos lavar a merda que fizemos, as oportunidades perdidas, as palavras que não dissemos, os abraços que não demos.

Sejamos honestos por um segundo: nada muda de verdade na virada. Você é a mesma pessoa às 23h59 de 31 de dezembro e à 00h01 de 1º de janeiro. Os problemas continuam. As dívidas também. O vício não desaparece. A barriga não murcha.

E ainda assim… ainda assim celebramos.

Porque no fundo, muito no fundo, o Ano Novo não é sobre mudança real. É sobre a preservação da esperança. É sobre manter viva a chama teimosa da crença de que podemos ser melhores, de que amanhã pode ser diferente, de que ainda dá tempo. É a humanidade tentando desesperadamente acreditar que pode recomeçar.

Quando você levantar sua taça na virada, saiba o que está fazendo.

Você não está apenas seguindo uma tradição boba. Você está participando de um gesto humano que atravessa milênios. Você está dizendo, sem palavras, que ainda acredita. Que apesar da evidência empírica de que você provavelmente vai repetir seus padrões, você ainda acha que vale a pena tentar.

O Ano Novo é a mentira mais bonita que contamos coletivamente. É o acordo tácito de que, por uma noite, podemos fingir que o calendário tem poder mágico. E nesse fingimento compartilhado, nessa suspensão voluntária da descrença, encontramos algo raro: um momento de união global em torno da esperança.

Feliz Ano Novo. Que você tenha a humildade de agradecer o que passou e a audácia de acreditar no que vem, a coragem de continuar tentando e a atitude de realmente mudar para melhor.

Tem algo interessante acontecendo por aí?
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