Até Perón: A Argentina como Potência Global (1880-1945)
A Argentina do final do século XIX até o início do século XX foi, sem exagero, um milagre econômico. Entre 1860 e 1930, a exploração das riquíssimas terras das pampas impulsionou um crescimento econômico extraordinário. O país não era apenas rico; era uma das maiores economias do mundo.
Em 1913, a Argentina estava entre os dez países mais ricos do mundo em termos de renda per capita. Seu PIB per capita passou de 35% da média dos Estados Unidos em 1880 para cerca de 80% em 1905 — nível semelhante ao da França, Alemanha e Canadá.
Na década de 1870, os salários reais na Argentina equivaliam a cerca de 76% dos da Grã-Bretanha; na primeira década do século XX, essa proporção subiu para 96%. Era praticamente um país desenvolvido antes de qualquer país latino-americano.
O crescimento foi impulsionado por: abundância de terras férteis, imigração europeia massiva, exportação de produtos agrícolas de alta qualidade (carnes e grãos), abertura para investimento estrangeiro e, crucialmente, liberdade econômica.
A Argentina do período pré-Primeira Guerra Mundial diversificou sua economia com sucesso, evitando a armadilha de dependência de um único produto. O período foi tão impressionante que muitos esperavam que se tornasse “os Estados Unidos da América do Sul”.
De Perón até Milei: Os 80 Anos de Declínio Contínuo (1946-2023)
O Ponto de Virada: Perón (1946-1955)
Juan Domingo Perón não foi apenas um presidente; foi o marco zero da derrocada econômica argentina.
Quando Perón chegou ao poder em 1946, a Argentina não estava mal — pelo contrário. O país saíra da Segunda Guerra Mundial com 1,7 bilhões de dólares em reservas e dívida externa zerada. Essa era a base perfeita para se manter como potência econômica.
Mas Perón tinha outras ideias. Ele adotou uma “guinada à esquerda” baseada em nacionalizações em massa, intervencionismo estatal generalizado, controle de preços e aluguéis, e uma política macroeconômica expansionista voltada para redistribuição de riqueza através de políticas populistas.
Os resultados iniciais foram sedutores — e aí está a armadilha do populismo: crescimento rápido, salários em alta, que mascaram o desastre que vem depois. Entre 1946 e 1948, a economia argentina cresceu 16% em termos reais, enquanto bens e serviços disponíveis aumentaram 29%. O PIB cresceu espetacularmente em 1947, com 11,1% de crescimento.
Mas como isso foi financiado? Perón nacionalizou o Banco Central para poder imprimir dinheiro descontroladamente — a receita clássica do desastre. Aumentou gastos públicos de 8,5% para 12% do PIB no final dos anos 1940. As reservas acumuladas durante a guerra foram queimadas em gastos populistas.
Em 1950, o PIB per capita da Argentina já havia caído para menos da metade do dos Estados Unidos.
Perón criou um sistema de quase total protecionismo contra importações, isolando amplamente a Argentina do mercado internacional. O objetivo era desenvolver indústrias domésticas, mas o resultado foi uma indústria voltada para o mercado interno, com altos custos de produção e completamente incapaz de competir internacionalmente.
Enquanto isso, a produção de carne bovina e grãos — os verdadeiros pontos fortes da Argentina — estagnaram. Por quê? Porque o governo desestimulava as exportações através do IAPI (Junta de Coordinación y Comercialización Agrícola), que pagava menos aos produtores agrícolas enquanto os preços caíam no mercado internacional. Os produtores perderam a motivação de investir em agricultura.
A combinação foi letal: protecionismo industrial, redistribuição de renda do setor agrário para o industrial, e crescente intervenção estatal geraram um processo inflacionário crônico que duraria 70+ anos.
Até 1962, o PIB per capita argentino ainda superava o de Áustria, Itália, Japão e Espanha — mas essa era sua última glória comparativa. Depois disso: queda contínua.
Após Perón cair em 1955, uma série de governos tentou corrigir o rumo, mas nenhum conseguiu se livrar completamente do legado peronista. A inflação crônica virou a marca registrada da Argentina:
- 1966-1969: Tentativa de controle de inflação reduzindo-a de ~30% para 7,6%, mas destruindo salários reais no processo
- Década de 1970: Retorno de Perón em 1973 com crescimento salarial descontrolado e gastos públicos exorbitantes, levando a inflação para 800% ao ano
- 1976-1983: Ditadura que aumentou a dívida externa de 9 bilhões para 45 bilhões de dólares
- 1983-1989: Governo Alfonsín tentando controlar, conseguindo inflação abaixo de 2%, mas perdendo apoio político
- Anos 1990: Plano de Convertibilidade (“uno a uno”) de Menem pareando peso com dólar, criando estabilidade artificial que desabaria em 2001
- 2001: Colapso espetacular. Calote da dívida, congelamento de poupanças, desemprego em 25%, pobreza em 54%
- 2003-2015: Recuperação em ciclo de commodities com Kirchner (Néstor) e Kirchner (Cristina), mascarando problemas estruturais
- 2015-2019: Tentativa de Mauricio Macri de reformas liberais, mas com implementação malfeita que aprofundou a crise
- 2019-2023: Retorno do peronismo com Alberto Fernández, que levou a Argentina ao “último degrau de seu retorno à condição de país subdesenvolvido”
Em 2023, quando Javier Milei assumiu, a Argentina estava em colapso total: inflação de 211,4% ao ano, pobreza acima de 40%, desemprego elevado, economia contraída, moeda em fuga, dólares sendo guardados na cozinha porque ninguém confiava no peso.
Período Milei: A Proposta Radical
Milei não entrou na presidência com meia-soluções. Ele prometeu uma “terapia de choque” — o que chamou de “Plano Motosserra” — baseado em: ajuste fiscal radical, liberalização econômica, privatizações e fim do intervencionismo estatal.
Seus principais passos iniciais foram:
- Corte massivo de gastos públicos (eliminou ministérios, congelou aposentadorias, demitiu servidores públicos)
- Fim dos subsídios governamentais para eletricidade, água, transporte e combustíveis
- Desregulamentação econômica em massa
- Abertura comercial (redução de barreiras)
- Retirada de controles cambiais
- Desinflação através de rígida disciplina fiscal
- Floatação do câmbio (deixando o peso encontrar seu valor real)
Inflação: O Grande Sucesso
Este é o indicador onde Milei tem seu maior triunfo. A inflação era insustentável:
- Dezembro de 2023: 25,5% mensal
- Março de 2024: Pico de 289,4% acumulado em 12 meses
- Fevereiro de 2025: 2,4% mensal
- Inflação anual em fevereiro de 2025: 66,9% (em trajetória decrescente para ~27% em 2025)
Essa é uma vitória real, especialmente porque a hiperinflação estava destruindo a economia no ritmo da máquina de imprimir dinheiro peronista.
Contas Públicas: Superávit Histórico
Pela primeira vez em 123 anos, a Argentina registrou um superávit nominal em 2024 — ou seja, após pagar juros da dívida, sobrou dinheiro. Isso não é pequeno; é extraordinário.
Milei logrou:
- Superávit primário por 13 meses consecutivos
- Superávit aproximado de 600 bilhões de pesos em janeiro de 2025
- Interrupção da emissão monetária desenfreada que alimentava a inflação
PIB: Contração Inicial, Recuperação em Andamento
- 2024: PIB recuou 1,7% (menos pessimista que as projeções iniciais de -3,5%)
- Primeiro semestre de 2024: recessão técnica
- Segundo semestre de 2024: crescimento consecutivo
- Primeiro trimestre de 2025: crescimento de 5,8% comparado ao mesmo período de 2024
- Projeções do FMI para 2025: crescimento de 5,5%
- Projeções para 2026: 4,5%
Câmbio: Estabilização
O peso argentino, que estava em fuga livre com o “dólar blue” (câmbio paralelo) superando vastamente o oficial, começou a se estabilizar:
- Redução da disparidade entre câmbio oficial e paralelo (“dólar blue”)
- Levantamento previsto de controles de capital em 2025 para atrair dólares legítimos
Investimento Estrangeiro
Não houve explosão, mas há sinais de confiança renovada:
- Anúncio de acordo com o FMI descrito como “vitória histórica”
- Marcos regulatórios como o RIGI atraindo investimentos em energia e mineração
- Negociações com EUA para acordo de livre comércio em andamento
Pobreza: A trajetória está descendo – e o crescimento de empregos também, mas os números ainda refletem o custo social das reformas.
Um número importante que frequentemente é ignorado: os salários cresceram acima da inflação em 2024:
- Setor público: salários subiram 119,3% enquanto a inflação foi 117,8%
- Setor privado: salários subiram 147,5% enquanto a inflação foi 117,8%
Isso significa que, apesar de toda a austeridade, o poder de compra se recuperou no final de 2024.
Conclusão:
A Argentina passou de ser uma das dez maiores economias do mundo (1913) para um país que precisou de salvação radical 110 anos depois. A responsabilidade está clara: o peronismo (nascido em solos esquerdistas) e suas variações — populismo econômico, nacionalizações, intervencionismo, inflação crônica — destruíram sistematicamente uma nação rica.
Os números históricos são impiedosos:
- 1913: 6ª maior economia mundial, renda per capita comparável à de países desenvolvidos
- 1962: PIB per capita ainda superava Itália, Japão, Áustria
- 2011: PIB per capita máximo na era moderna (17.376 dólares)
- 2023: Colapso com inflação de 211%, pobreza de 40%+
O governo Milei é ainda um “experimento em andamento”. Seus números macroeconômicos — inflação controlada, contas públicas equilibradas, crescimento voltando — são reais.
Se conseguir manter a disciplina fiscal, atrair investimentos privados, e permitir que a economia cresça sem volta ao populismo, pode estar iniciando a recuperação genuína.
O que é inegável: 80 anos de socialismo/peronismo/populismo levaram a Argentina da prosperidade à miséria. E um ano de liberalismo radical (ainda que doloroso) trouxe inflação de 211% para menos de 3% mensal e devolveu superávit fiscal à nação.
Os fatos e dados falam por si – já a interpretação deixo para você.
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