O Relógio Quebrado: Você está vivendo ou apenas postando?

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O tempo, esse carrasco democrático, nos entrega a todos, sem exceção, as mesmas 24 horas a cada nova virada do relógio. É o único bem que realmente nos iguala, do bilionário entediado em seu iate ao operário que sonha em não precisar mais pegar o mesmo ônibus lotado de todo o dia. A ironia trágica desses nossos dias é que, tanto o pobre como o rico parecem perdidos no uso desse recurso precioso chamado tempo. De fato, chega a ser um paradoxo, mas já não sabemos usá-lo. Desaprendemos a viver o tempo. Passamos apenas o preenchê-lo com sorrisos artificiais e selfies que buscam aprovação e conexão duvidosa com pessoas que jamais conheceremos pessoalmente.

Então, permitam-me apresentar Jonas. Ele não é um herói, talvez seja o anti-herói da nossa modernidade. Todas as manhãs, antes mesmo de sentir o aroma do café, Jonas mergulha no oceano luminoso do seu smartphone. Ali, ele navega por um arquipélago de vidas perfeitas expostas nas mais diversas redes sociais a que ele tem acesso. Amigos em praias exóticas, colegas celebrando promoções, conhecidos exibindo corpos esculpidos e sorrisos que parecem nunca desbotar. Cada imagem é um pequeno golpe em sua autoestima, uma lembrança silenciosa de que sua vida, a vida real, parece desinteressante, opaca, desprovida do filtro que embeleza a existência alheia. Poucos segundos em cada vida alheia já deixa nele a sensação de que a vida dos outros é muito mais interessante do que a dele próprio.

Jonas é um cidadão típico dessa “sociedade do desempenho”, como batizou o filósofo Byung-Chul Han. Ele não é oprimido por um poder externo, mas por uma demanda interna incessante por performance. Ele se tornou seu próprio capataz, e o chicote é a comparação constante que começa com o desbloquear da primeira tela logo ao acordar. Antes do café, antes de escovar os dentes, antes de olhar para a sua realidade de fato. A consequência, como nos alerta Augusto Cury, é uma epidemia de ansiedade, traduzida nessa Síndrome do Pensamento Acelerado (SPA) que nos faz reféns de um futuro que nunca chega e de um presente que não vivemos e não nos satisfaz. Vivemos a tirania dos sorrisos que não demos e das viagens que não fizemos.

O mundo, hoje, se divide em dois: os que levam a vida idealizada e os que buscam a vida realizada. Os primeiros são os arquitetos da fantasia digital, curadores de um museu de si mesmos, onde cada post é uma peça cuidadosamente selecionada para projetar sucesso e felicidade. E quem se importa se é real aquele momento? No momento que foi postado e recebeu o primeiro LIKE, aquilo passou a ser verdadeiro.

Contrapondo a vida de Jonas, está uma parcela cada vez mais diminuta da nossa sociedade moderna. São os que se atrevem a viver de verdade, independentemente dos registros digitais. Eles entendem que a felicidade não é um algoritmo de engajamento, como poderia nos lembrar Yuval Harari ao falar das nossas “ordens imaginadas”. A vida realizada acontece nos intervalos, nos momentos não televisionados, nas alegrias silenciosas e nas dores que nos ensinam a sermos humanos.

Dores estas que as novas gerações estão aprendendo a evitar. Querem evitar as dores do amadurecimento. Os desconfortos do aprendizado. O incômodo das incertezas. As angústias das frustrações. Por isso nunca se testemunhou antes essa quantidade de adultos infantilizados incapacitados para lidarem com suas frustrações e dores.

Um dia, a bateria do celular de Jonas acabou no meio da tarde. Foi um pequeno apocalipse pessoal (quem nunca?. Pela primeira vez em anos, ele se viu forçado a olhar pela janela do escritório onde trabalhava sem um propósito definido. Viu a dança das folhas secas no vento, o riso de duas crianças na calçada, a pressa e a calma nos rostos dos passantes.

Percebeu que, enquanto se afogava na “não-vida” da modernidade, a vida real, com sua beleza imperfeita e sua melancolia necessária, continuava pulsando lá fora longe dos registros perfeitos e das aprovações alheias. Jonas se deu conta que não era um “Homo Deus” (Livro de Yuval Harari que retrata nossa vontade de nos igualarmos a Deus), mas que ele era apenas mais um ser que transcende suas limitações, um Sapiens (também livro de Yuval), um animal que anseia por conexão e significado, algo que nenhuma tela poderia verdadeiramente lhe oferecer.

“Há de eu pudesse explicar a todos o que estou sentindo agora” pensou o empolgado Jonas. A consciência de que, de maneira geral, estamos nos tornando espectadores de nossas próprias vidas é apenas o primeiro passo. A resistência não é um ato grandioso, mas uma escolha diária. É a decisão de desligar o celular para ouvir uma história, de caminhar sem o mapa do GPS para se perder e se encontrar, de sentir a tristeza sem a pressa de postar uma frase de superação.

Viver a vida em sua plenitude é abraçar o pacote completo: as alegrias que nos aquecem a alma e as tristezas que nos lembram que estamos, afinal, perigosamente vivos. E isso, meus caros, nenhum feed poderá capturar. Que a bateria de nossos eletrônicos acabe muito antes que a nossa bateria biológica, esse é o desejo.

Por Paulo Lovi, Psicanalista, Terapeuta, mestrando em Neuropsicologia e Jornalista.

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