Simão Bacamarte é um homem de ciência respeitado, alguém que viajou pela Europa e pelo Brasil consolidando reputação como médico de primeira linha. Quando retorna à pequena vila de Itaguaí com essa auréola de conhecimento, traz consigo uma decisão que marcará para sempre o destino daquela comunidade: dedicar-se ao estudo científico da alienação mental—aquilo que chamamos hoje de psiquiatria.
Bacamarte não é um homem trivial. É alguém movido por vocação genuína, pela certeza inabalável de que a razão científica pode dominar os mistérios da mente humana. Escolhe para esposa uma viúva de meia-idade chamada Dona Evarista—não por amor, mas por frio cálculo racional. Ela não é bonita nem simpática, mas possui saúde robusta e capacidade reprodutiva, características que o doutor julga essenciais para gerar prole de qualidade. É significativo que o casal nunca consegue ter filhos. Essa esterilidade inicial já contém ironia.
Bacamarte obtém autorização da Câmara Municipal para construir um manicômio. Ergue-se então a Casa Verde, assim chamada pela cor de suas janelas—uma instituição que será simultaneamente abrigo, laboratório e cárcere. O doutor a concebe como espaço de pesquisa rigorosa, onde poderá observar, catalogar e, eventualmente, curar todos os loucos da região.
No início, tudo parece funcionar conforme esperado. Os primeiros internados são verdadeiramente alienados—pessoas com perturbações mentais óbvias que a população aceita ver removidas da convivência diária. Mas é aqui que começa o desvirtuamento sublime da narrativa.
Bacamarte, imerso em seus estudos, passa a enxergar loucura onde antes havia apenas eccentricidade, e eccentricidade onde havia apenas normalidade. Seu olhar, treinado para detectar patologia, começa a ver desvios em tudo e em todos. O primeiro caso significativo é Costa, um homem que perdeu sua herança emprestando dinheiro a amigos e não conseguindo cobrar. Para Bacamarte, essa generosidade ingênua é sintoma de desequilíbrio mental. Costa é internado.
Depois vem o vereador Galvão, que, em sessão da Câmara, propõe lei que proíba a internação de vereadores. O gesto defensivo é interpretado pelo alienista como sinal inequívoco de loucura—afinal, um homem racional não temeria internação se estivesse são. Galvão entra na Casa Verde.
O Padre Lopes, vigário virtuoso da cidade, homem de integridade notória, é considerado louco precisamente por sua perfeição moral. Um indivíduo com equilíbrio tão perfeito entre vício e virtude não poderia ser normal—deve haver algo patológico naquela integridade excessiva. O padre segue para a Casa Verde.
A população começa a se inquietar. Amigos desaparecem nas paredes verdes. Famílias se veem separadas. Rumores circulam pela vila—quem será o próximo? Qual comportamento será classificado como loucura? Ninguém está seguro, porque os critérios do doutor são movediços, fluidos, determinados não por ciência objetiva mas por sua intuição em constante mutação.
É então que Porfírio, barbeiro ambicioso e orador de talento, percebe oportunidade. Mobiliza a população ressentida e lidera a chamada Revolta dos Canjicas (apelido que recebia por vender canjica na rua). Os revoltosos marcha até o casarão do alienista, exigindo fechamento da Casa Verde e liberação dos internados.
Bacamarte recebe a multidão com tranquilidade perturbadora. Ouve as acusações, reconhece a fúria popular, mas, com um gesto indiferente, volta-se para seus livros, como se aquela rebelião fosse mero incômodo. Por um momento, parece que a multidão se dissipará, apaziguada pela frieza racional do doutor.
Mas aí ocorre algo revelador: quando Bacamarte lhes vira as costas, o povo se revolta novamente. A polícia chega para controlar tumulto—e então, em reviravolta cômica, a força policial se une aos revoltosos. Porfírio subitamente vira governante da província, aclamado como libertador.
O desfecho dessa rebelião é onde Machado revela sua compreensão corrosiva da natureza humana. Porfírio, em vez de derrotar Bacamarte, negocia com ele. O barbeiro ambicioso reconhece que o alienista possui algo que ele deseja: autoridade, poder de definição, legitimidade de “ciência”. Fazem acordo: as internações continuarão.
Isso desencadeia cascata de eventos igualmente absurdos. Cinquenta apoiadores da revolta de Porfírio são internados—medida que causa indignação renovada. Outro barbeiro, João Pina, lidera novo golpe, depõe Porfírio. Mas o padrão repete-se: o novo governo também fortalece a Casa Verde, não a destrói.
Dona Evarista, esposa do alienista, sofre particular humilhação: após noite mal dormida porque não conseguiu decidir qual roupa usar para festa, é considerada pela marido como portadora de alienação mental e internada. A mulher que compartilhou leito com o doutor, que suportou sua negligência emocional e dedicação obsessiva à ciência, descobre-se internada precisamente por incapacidade de tomar decisão trivial.
Enquanto isso, a proporção de internados cresce exponencialmente. Logo 75% da população de Itaguaí está dentro da Casa Verde. Vereadores, comerciantes, padre, mulher do alienista, amigos do alienista—todos rotulados como loucos.
É em momento de crise extrema que Bacamarte experimenta algo aproximado a epifania. Reformula sua teoria: e se a loucura não fosse ausência de razão, mas excessivo equilíbrio mental? E se os loucos fossem aqueles cujas mentes funcionam com perfeição? Liberta todos os internados novamente e começa a aplicar nova teorização.
Mas essa terceira ou quarta teoria também falha. Bacamarte observa que ninguém—absolutamente ninguém na vila—possui mente perfeitamente equilibrada. Todos carregam doses de irracionalidade, vício, contradição. Todos estão, em certo sentido, loucos.
Exceto ele próprio.
Após análise minuciosa de seu próprio estado mental, Bacamarte conclui que é o único indivíduo são, o único cuja razão funciona sem falha. Conclusão lógica: se todos os outros estão loucos e apenas ele é são, logo ele, o único diferente, é o alienado verdadeiro.
Com essa lógica inabalável, Simão Bacamarte ordena sua própria internação na Casa Verde. Tranca-se nas dependências do manicômio, continuando seus estudos, mas agora como sujeito e objeto simultâneos da investigação. Morre ali dezessete meses depois, vítima final de sua própria ciência.
O Legado:
O Alienista permanece obra de perturbadora atualidade porque questiona o que Machado nunca respondeu completamente: quem tem autoridade para definir normalidade? Qual é a fronteira entre razão e loucura? E, crucialmente, o que acontece quando aqueles investidos de autoridade científica perdem a própria bússola moral?
O narrador machadiano nunca nos diz se Bacamarte realmente estava louco. Talvez estivesse. Talvez a sociedade de Itaguaí estivesse. Talvez a loucura seja condição humana universal, apenas disfarçada de racionalidade pelas estruturas de poder que conseguem se impor.
O que permanece inequívoco é a crítica: o cientificismo positivista do século XIX, tão certo de suas verdades, tão convicto de sua superioridade racional, produzia apenas patologização do diferente e encarceramento do questionador. E uma população inteira, por medo ou conveniência, permitia tudo.
Machado de Assis nos deixa, com ironia que atravessa séculos, a constatação amarga de que a loucura de um homem, quando revestida de autoridade e ciência, pode enlouquecer coletivamente uma sociedade ou no fique em casa, seja na casa verde ou em suas próprias casas.
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