23/03/2021 às 09h48min - Atualizada em 23/03/2021 às 09h35min

A “nova política” e o tribunal de julgamento do impeachment

O tribunal que julgará o impeachment do Governador Carlos Moises é uma prova de fogo ao seu lema de defensor da execução de uma “nova política”, com reflexos imediatos aos julgadores.

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Não será fácil descolar a realidade enfrentada pelos catarinenses com eventuais discursos apaziguadores de solidariedade ao Governador Carlos Moisés. Isso por conta do cenário calamitoso enfrentado por todo o Estado. Em um breve esboço, fica fácil notar que todas as regiões sofrem consequências gravíssimas pelo rumo escolhido para enfrentamento da pandemia, transformando em realidade os recorrentes avisos de possível colapso.

Se por um lado é de conhecimento público a trágico o momento da saúde pública no Estado, por outro o Executivo tenta disfarçar a situação represando dados que comprovem o caos. Exemplo mais recente disso é que foram necessárias duas decisões judiciais para que o Estado voltasse a publicar os números da fila de espera por uma vaga em UTI. Hoje são 400 catarinenses no aguardo de um leito para tratamento intensivo.

Toda essa tragédia é coroada com o “sumiço” dos R$ 33.000.000,00 pagos antecipadamente para aquisição de respiradores que nunca desembarcaram no Estado, além do projeto de implementação de um hospital de campanha com valor três vezes maior do praticado em outros Estados. Segundo o Governador Carlos Moisés, ele não sabia de nada. Como o chefe do executivo estadual não sabia das negociações mais importantes que ocorriam em suas secretarias?

Como se não bastasse, há o risco real de faltar o “kit entubação”, composto por medicamentos que viabilizam o procedimento. Os principais fármacos em risco de desabastecimento são os bloqueadores neuromusculares e anestésicos. Por consequência disso, o Hospital Nereu Ramos, localizado em Florianópolis, criou um guia de racionamento de medicamentos.

Mas o problema não reside apenas na Capital.

Reduto do Deputado Valdir Cobalchini (MDB), o município de São Lourenço do Oeste não tem leitos de UTI para tratamento do COVID-19 no Hospital da Fundação, responsável pelos atendimentos de maior complexidade. Enquanto isso, sua enfermaria está com taxa de ocupação em 108%, segundo dados da própria Prefeitura.Com aproximadamente 25 mil habitantes, o município já atingiu 30 óbitos decorrentes de complicações provocadas pelo vírus. O parlamentar é membro da comissão da saúde na ALESC, o que gera expectativa ainda maior por seu posicionamento.

Também componente da bancada do Oeste, a maior da Assembleia Legislativa, o Deputado Fabiano da Luz (PT) é ex-prefeito de Pinhalzinho, cidade com aproximadamente 21 mil habitantes e está classificada no risco potencial gravíssimo de transmissão e ocupação de leitos hospitalares. Já são 24 óbitos no município.
Também do Oeste, a relatora do Tribunal de Julgamento é a Desembargadora Rosane Portella Wolff é de Chapecó. O município contabilizava 138 óbitos em decorrência do COVID-19 em 29 de janeiro. Hoje, segundo o boletim da prefeitura, 474 chapecoenses perderam a vida para o vírus. São 336 óbitos em menos de 60 dias.

Ex-prefeito de Timbó na gestão 2009-2012, o agora Deputado Laércio Schuster (PSB) tenta intermediar com o Governo o Estado a ampliação dos leitos de UTI no município, que já contabiliza 44 óbitos. A direção do Hospital e Maternidade Oase já chegou a emitir nota oficial informando o colapso de atendimento na unidade. No município vizinho de Rio dos Cedros a situação não é melhor: o Hospital Dom Bosco também assinou a nota, confirmando as dificuldades pela falta de leitos e falta de colaboradores.

O líder do governo na ALESC, Deputado José Milton Scheffer (PP) também compõe a comissão que julgará o impeachment do Governador Moisés, seu aliado político. Zé Milton, como é conhecido, é natural de Sombrio, município localizado no sul do Estado. Sem UTIs no município, óbitos já começaram a ser registrados pela falta de atendimento especializado. No último dia 09, um homem de 60 anos faleceu enquanto aguardava um leito para tratamento.

Representando a capital, caberá ao Deputado Marcos Vieira (PSDB) a incumbência de votar pelo prosseguimento ou não do impeachment, marcado para o dia 26. Também naturais de Florianópolis, os Desembargadores Luiz Antônio Zanini Fornerolli e Roberto Lucas Pacheco integram o Tribunal Especial de Julgamento que definirá o futuro da política catarinense. Isso ao mesmo tempo em que o município atinge 97% de ocupação de leitos hospitalares, 17% acima do alerta crítico. A ilha da magia já perdeu 630 vidas.

Há mais de quatro semanas com ocupação hospitalar acima de 97% no Estado, o julgamento do impeachment dos respiradores promete contornos de pouca retidão ao Governador Moisés. Mesmo após regressar ao comando do Estado depois de ser absolvido em outro processo de impeachment e viver momento diferente na relação junto ao legislativo, o julgamento colocará em pauta dois assuntos distintos: seus arranjos políticos e a condução das políticas públicas do governo. Será a prova de fogo da “nova política” que tanto criticou o aparelhamento do executivo em troca de benefícios pessoais. O reflexo das escolhas promete ser imediato com as eleições do próximo ano, principalmente aos parlamentares envolvidos no processo.


Mapa em tempo real situação COVID:  ​https://app.powerbi.com/view?r=eyJrIjoiNDMyMDhkMWItZTI3NC00ZTkzLWJiNTEtOWE1YWQxZjg4MjI2IiwidCI6ImExN2QwM2ZjLTRiYWMtNGI2OC1iZDY4LWUzOTYzYTJlYzRlNiJ9
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