Especialista em direito bancário afirma que juros elevados por longos períodos transformam dívidas empresariais em estruturas financeiras difíceis de sustentar
A taxa básica de juros brasileira permanece em um dos níveis mais altos das últimas décadas. Com a Selic em 15% ao ano, o crédito corporativo se tornou mais caro e mais sensível a oscilações econômicas. Para muitas empresas, o impacto não aparece de forma imediata no faturamento ou na operação diária. Ele se manifesta na estrutura financeira, onde os encargos passam a crescer de forma acumulada.
Quem acompanha esse movimento de perto é o advogado Dr. Valdecir Rabelo, presidente da VR Advogados e especialista em direito bancário e insolvência empresarial. Na análise dele, a permanência de juros elevados por um período prolongado altera a dinâmica das dívidas empresariais e cria um efeito que muitos empresários só percebem quando o passivo já se tornou pesado.
“Quando a taxa básica permanece alta por muito tempo, os juros compostos passam a ter um papel central na evolução da dívida. O empresário continua pagando parcelas, mas a estrutura financeira por trás do contrato pode crescer de forma relevante”, afirma.
O ambiente de crédito já reflete esse cenário. Dados do Banco Central indicam que a taxa média de juros cobrada de empresas nas operações de crédito com recursos livres subiu de 20,6% ao ano para 24,5% em apenas doze meses. A elevação acompanha o ciclo de alta da Selic e encarece tanto novos financiamentos quanto renegociações de contratos existentes.
O efeito é percebido também pelo setor produtivo. Levantamento da Confederação Nacional da Indústria mostra que 80% das empresas industriais apontam os juros elevados como principal dificuldade para acessar crédito de curto prazo. No financiamento de longo prazo, 71% dos empresários indicam a Selic como principal barreira para novos investimentos.
Para Rabelo, esse cenário altera profundamente a forma como as empresas lidam com suas dívidas. Em um ambiente de juros elevados, contratos bancários passam a acumular encargos mais pesados e renegociações podem incorporar custos adicionais ao longo do tempo.

“Muitas empresas continuam operando, faturando e mantendo equipes. O problema aparece quando parte crescente da receita começa a ser direcionada para o pagamento da dívida. Nesse momento, a margem financeira fica cada vez mais estreita”, explica.
Executivos do sistema financeiro também observam o aumento da pressão sobre o setor corporativo. O CEO do Inter no Brasil, Alexandre Riccio, afirmou recentemente que a manutenção da Selic em patamares elevados já começa a aumentar o risco de inadimplência entre empresas.
O Brasil também se destaca no cenário internacional. Segundo a Confederação Nacional da Indústria, o país mantém uma das maiores taxas de juros reais do mundo, o que encarece o capital e reduz a competitividade do setor produtivo.
Na prática, isso significa que muitas empresas passam a operar em um ambiente mais exigente financeiramente. O crédito se torna mais caro, as renegociações ficam mais complexas e a gestão do passivo passa a ocupar um papel central na estratégia empresarial.
Rabelo observa que o impacto dos juros raramente aparece como um problema imediato. Ele tende a se acumular ao longo de ciclos de financiamento e renegociação.
“O empresário muitas vezes conhece o valor nominal da dívida, mas não percebe como ela evolui ao longo do tempo. Quando os juros são elevados por períodos prolongados, essa evolução pode mudar completamente a estrutura financeira da empresa”, afirma.
Com o custo do dinheiro em patamares elevados, compreender a dinâmica das dívidas empresariais deixou de ser apenas uma questão financeira. Tornou-se um elemento decisivo para a estabilidade das empresas em um ambiente de crédito mais técnico e seletivo.
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