Dostoiévski

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Fiódor Dostoiévski não é apenas “um grande romancista russo”. É, para muita gente séria, o sujeito que levou a literatura ao limite da filosofia, da teologia e da psicologia – um dos primeiros autores a encarar de frente aquilo que o ser humano tem de mais sombrio e de mais luminoso ao mesmo tempo.

A obra dele gira em torno de uma obsessão: o que fazemos com a nossa liberdade diante do mal, do sofrimento e da ausência (aparente) de Deus? Essa pergunta está por trás de praticamente todos os romances, e é por isso que Dostoiévski continua parecendo “um pensador do hoje”, mesmo escrevendo na Rússia do século XIX.

Vida e matéria‑prima existencial

Dostoiévski (1821–1881) não escreveu a partir de uma torre de marfim. Ainda jovem, foi preso por participar de um círculo intelectual considerado subversivo pelo czar; foi condenado à morte, levado ao pelotão de fuzilamento, e perdoado no último minuto – uma encenação deliberada do regime. Em seguida, passou anos em trabalhos forçados na Sibéria, convivendo com criminosos reais, assassinos, ladrões, marginais de todo tipo.

Essa experiência radical entrou diretamente em livros como “Memórias da Casa Morta”, onde ele descreve a psicologia dos presos, o desejo brutal de liberdade e as múltiplas formas de sobrevivência moral (ou imoral) dentro do sistema penal. Dali em diante, toda sua ficção será marcada por:​

  • consciência aguda do sofrimento;
  • interesse obsessivo pela culpa e pela expiação;
  • visão muito crítica de utopias políticas e sociais.

Principais obras – um mapa rápido

“Notas do Subsolo” (1864)

Talvez a porta de entrada mais direta para o universo de Dostoiévski. É um monólogo de um funcionário aposentado, o Homem do Subsolo, que vive isolado em São Petersburgo, ressentido, hiperconsciente, autodestrutivo. Ele ataca a ideia de que o ser humano é racional e previsível; ao contrário, insiste que o homem é capaz de escolher conscientemente o que o destrói, só para afirmar sua liberdade contra qualquer sistema “científico” ou social.

Aí já estão condensados vários temas centrais: liberdade como capricho, autossabotagem, ódio à própria consciência e repulsa às utopias racionalistas.

“Crime e Castigo” (1866)

Talvez o romance mais famoso. O estudante pobre Raskólnikov formula a teoria de que existem homens “extraordinários” acima da moral comum, para quem o crime pode ser permitido se for por um “bem maior”. Ele mata uma agiota, tentando provar sua teoria na prática.​

O romance acompanha:

  • o crime;
  • a degradação psicológica após o ato;
  • o conflito entre racionalização e consciência;
  • e, por fim, a possibilidade de redenção por meio do sofrimento e do amor (com Sônia, a prostituta que encarna uma fé humilde).

É um laboratório de filosofia moral em forma de thriller psicológico.

“O Idiota” (1868–69)

Dostoiévski quis criar um personagem “positivamente bom”: o príncipe Míchkin, uma espécie de inocente radical que, num mundo cínico, é chamado de “idiota”. O romance pergunta: há espaço para a pureza evangélica numa sociedade competitiva, vaidosa e neurótica?​

A resposta é ambígua e trágica: a bondade de Míchkin não “vence” o mundo – ela o expõe. A queda generalizada em torno dele mostra quanto a sociedade rejeita a santidade quando ela deixa de ser abstrata e passa a incomodar.

“Demônios” / “Os Possessos” (1871–72)

Aqui Dostoiévski mira diretamente os círculos revolucionários da Rússia de sua época. Um grupo de conspiradores tenta incendiar a ordem existente em nome de uma ideologia total – “destruir para substituir”.​

O livro é ao mesmo tempo sátira política, tragédia e diagnóstico: como ideias abstratas, quando adotadas fanaticamente, podem possuir pessoas como “demônios”, levando a assassinatos, suicídios, caos social e vazio espiritual.

“Os Irmãos Karamázov” (1879–80)

Sua obra‑testamento. Mistura drama familiar (o assassinato do pai devasso, Fiódor Karamázov) com discussão filosófica e religiosa de alto nível. Cada irmão encarna uma resposta distinta ao problema de Deus e do mal:​

  • Dmitri – o homem das paixões;
  • Ivan – o intelectual ateu, atormentado pela injustiça do sofrimento inocente;
  • Aliócha – o monge, símbolo da fé amorosa;
  • Smerdiákov – o cínico ressentido, que leva às últimas consequências a ideia “se Deus não existe, tudo é permitido”.​

O famoso capítulo do “Grande Inquisidor” é um dos textos mais poderosos sobre a troca entre liberdade e segurança: um cardeal acusa o Cristo de ter dado liberdade demais aos homens, e explica que a Igreja (como poder humano) prefere oferecer pão, milagres e ordem em troca da renúncia à liberdade interior.​

Temas centrais da obra

Liberdade, crime e responsabilidade

Para muitos comentaristas, a liberdade é o eixo central da filosofia de Dostoiévski. Ele não a vê como algo “bonito” em si, mas como um abismo: o ser humano é livre para amar e para matar, para crer e para rejeitar tudo, para perdoar e para destruir.

  • A liberdade é condição da moralidade: sem possibilidade real de escolher o mal, não há mérito em escolher o bem.​
  • Mas essa mesma liberdade aberta ao mal produz a experiência insuportável da culpa, tema recorrente em “Crime e Castigo” e “Os Irmãos Karamázov”.​

Irracionalidade e autossabotagem

Dostoiévski destrói qualquer ideal simplista de “homo economicus”. O Homem do Subsolo mostra que o indivíduo pode escolher contra o próprio interesse, apenas para preservar a sensação de ser dono de si. Essa crítica às utopias racionalistas (seja do socialismo científico, seja do liberalismo simplório) antecipa muita coisa da psicologia moderna.

Fé, dúvida e o problema do mal

A obra tardia é profundamente religiosa, mas nunca de forma ingênua. A figura de Ivan Karamázov encarna o intelectual que recusa um mundo em que crianças sofrem, mesmo que Deus exista. Do outro lado, personagens como Aliócha e Sônia mostram uma fé vivida na compaixão, não na teoria.

Dostoiévski oscila entre:

  • o reconhecimento brutal do absurdo do sofrimento;
  • e a aposta de que só o amor sacrificial (cristão) pode dar algum sentido a isso.​

Indivíduo versus ideologias

Especialmente em “Demônios”, Dostoiévski critica o socialismo e o niilismo russos como tentativas de construir uma nova “Torre de Babel”, trazendo o céu à terra à força – sacrificando indivíduos concretos a esquemas abstratos.

Ele percebe cada personagem como um “homem da ideia”: alguém possuído por uma crença que tenta provar no mundo real, custe o que custar.​

Por que Dostoiévski é tão atual?

Vários estudiosos apontam que as questões que ele tratou – niilismo, crise de sentido, conflito entre fé e razão, solidão urbana, colapso de valores compartilhados – são exatamente as do século XXI.

Alguns paralelos claros:

“Notas do Subsolo” e o sujeito online ressentido

O Homem do Subsolo é praticamente o protótipo do indivíduo hiperconsciente, isolado, ressentido, que vive numa mistura de autoparódia e ódio ao mundo. Hoje ele poderia ser:​

  • o usuário que passa o dia em fóruns anônimos;
  • o sujeito que cultiva humilhações passadas;
  • o que ataca qualquer discurso otimista como “falso”.

Dostoiévski antecipa a psicologia do troll, do incel, do misantropo digital – alguém que prefere o sofrimento controlado à vulnerabilidade dos vínculos reais.

“Crime e Castigo” e as racionalizações da violência

Raskólnikov cria uma teoria “humanitária” para justificar um assassinato: matar uma usurária “parasita” para usar o dinheiro em algo bom. Essa lógica é assustadoramente contemporânea:​

  • terroristas que se veem como agentes de justiça histórica;
  • ativistas que justificam linchamentos morais em nome de causas nobres;
  • Estados que tratam danos colaterais como “necessários” em nome de um bem maior.

O romance mostra como a ideia do “homem extraordinário” – acima da moral comum – continua viva, seja em políticos, revolucionários ou tecnocratas.

“Demônios” e os extremismos ideológicos

“Demônios” retrata uma cidade tomada por pequenos grupos radicais, teorias conspiratórias, discursos incendiários, manipulação de jovens, assassinatos justificados por “libertação”. Isso ecoa:

  • seitas políticas (uma certa ilha então…);
  • radicalismos;
  • movimentos que não querem reformar, mas destruir tudo.

O que Dostoiévski expõe é menos a ideologia específica e mais o mecanismo: ideias totalizantes que capturam pessoas vazias de sentido, oferecendo identidade em troca de obediência cega.

“Os Irmãos Karamázov” e a troca de liberdade por segurança

No “Grande Inquisidor”, o cardeal diz a Cristo que os homens não querem liberdade, mas pão, milagres e autoridade que pense por eles. Isso é assustadoramente aplicável:​

  • a populismos que prometem resolver tudo “se tiverem poderes excepcionais”;
  • as tecnocracias (muitas vezes com seus técnicos patrocinados por algum bilionário “epsteiniano”) que querem regular cada aspecto da vida em nome da “segurança”;
  • a discursos que diabolisam o dissenso como ameaça à ordem e ao estado “democrático”.

Dostoiévski parece antecipar a tentação permanente de trocar liberdade interior por conforto material e psicológico.

Atemporalidade: o que ele está dizendo para nós

Dostoiévski continua atual porque não está descrevendo apenas “a Rússia czarista”, mas estruturas permanentes da condição humana:

  • o conflito entre desejo de liberdade e desejo de tutela;
  • a capacidade de autossabotagem mesmo sabendo o que nos faz mal;
  • a tentação de justificar o mal em nome de um bem abstrato;
  • o colapso de valores comuns em sociedades secularizadas;
  • a busca desesperada por sentido em meio ao sofrimento.

Em vez de oferecer respostas fáceis, ele monta experimentos narrativos em que ideias são levadas ao extremo dentro de pessoas concretas. Por isso seus livros continuam “vivos”: cada época reconhece nelas os seus próprios demônios.

Ler Dostoiévski hoje não é exercício de erudição. É quase um exame de consciência civilizacional. Ele mostra, com brutal clareza, o que acontece quando liberdade se desconecta de responsabilidade, quando razão se desconecta de compaixão, e quando política tenta ocupar o lugar de Deus.

É exatamente por isso que, em guerras, crises ideológicas, pandemias de sentido e ondas de niilismo, Dostoiévski volta à tona: ele já esteve lá – no pelotão de fuzilamento, na prisão, no subsolo da alma – e transformou tudo isso em literatura que continua nos decifrando hoje.

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