Enquanto Mises constrói a base teórica (praxeologia, cálculo econômico, crítica ao socialismo), Rothbard pega isso, empurra ao limite e diz: se tudo isso é verdade, então o Estado como o conhecemos é ilegítimo em princípio, e todas as funções hoje estatais podem – e devem – ser privatizadas sob um regime de propriedade privada, contratos e não agressão.
Quem foi Murray Rothbard – contexto e posição no “ecossistema” austríaco
Murray Newton Rothbard (1926–1995) foi economista da Escola Austríaca, historiador econômico, teórico político e ativista libertário americano. Autor de mais de vinte livros, ele:
- sistematiza o anarcocapitalismo (libertarianismo sem Estado);
- integra a economia austríaca de Mises com uma ética de direitos naturais;
- transforma o libertarianismo num corpo doutrinário fechado, com começo, meio e fim.
Rothbard adota a praxeologia de Mises – a ideia de que economia é uma ciência dedutiva da ação humana – e a usa como base para todo seu edifício teórico, rejeitando metodologias mainstream (econometria como núcleo, modelagem puramente formal etc.).
O núcleo filosófico: auto‑propriedade, homestead e princípio de não-agressão
Rothbard não começa pela economia, mas por uma pergunta moral: quem é dono de quê?
Em The Ethics of Liberty, seu magnum opus ético, ele formula um sistema de lei natural libertária baseado em três pilares:
- Auto‑propriedade (self‑ownership)
Cada indivíduo é o único proprietário legítimo do próprio corpo, talentos, energias e tempo.
Ele argumenta que, logicamente, só há três alternativas:- cada um é dono de si;
- alguns são donos de outros (escravidão);
- todos são donos de todos (comunismo integral).
As duas últimas implicam hierarquias arbitrárias ou “propriedade mútua” impraticável; resta, portanto, a auto‑propriedade como base de um direito universal.
- Apropriação original (homesteading)
Recursos naturais sem dono tornam‑se propriedade legítima de quem os primeiro mistura com seu trabalho – lavrar a terra, explorar uma mina, construir numa área vazia etc., numa releitura radical do lockeano. - Princípio de Não‑Agressão (NAP)
Derivado dos dois anteriores, Rothbard formula o axioma central do libertarianismo:
“Nenhum homem ou grupo de homens pode agredir a pessoa ou a propriedade de qualquer outro.”
Agressão = iniciar força física, fraude ou invasão de propriedade. Defesa é legítima; iniciação de força, nunca.
Da combinação de auto‑propriedade + homestead + NAP, ele chega a uma conclusão forte: o Estado, por definição, viola esses princípios, pois:
- financia‑se por tributação compulsória (coerção, não contrato);
- reclama monopólio da jurisdição e da lei;
- aplica violência “legal” acima da moral que vale para todos os outros.
Anarcocapitalismo: sociedade sem Estado, mas não sem ordem
Rothbard batiza sua doutrina de anarcocapitalismo justamente para:
- distinguir‑se do anarquismo/anti‑propriedade;
- e do liberalismo “minarquista”, que aceita um “Estado mínimo”.
No modelo rothbardiano:
- todas as funções hoje estatais – justiça, segurança, defesa, infraestrutura, moeda, educação – podem ser prestadas por entidades privadas, em regime concorrencial;
- a “constituição” da sociedade é o NAP aplicado a contratos, propriedade e responsabilidade civil (tort law).
Ele vê o Estado como:
- “organização do roubo sistematizado e em larga escala” – uma entidade que vive de tributação, isto é, de apropriação coercitiva de recursos alheios;
- um monopólio coercitivo que não enfrenta concorrência e, portanto, é inerentemente ineficiente em qualquer serviço que fornece.
Daí a tese central: se tudo o que o Estado faz pode, em princípio, ser feito por arranjos voluntários e mercado (contratos, seguros, agências de arbitragem, empresas de segurança etc.), e se o Estado só existe violando o NAP, então ele é imoral e desnecessário.
“Man, Economy, and State”: o tratado econômico
Em “Man, Economy, and State” (1962), Rothbard tenta fazer pela economia o que Mises faz em Human Action: um tratado sistemático, construindo da ação individual até teoria de preço, capital, juros, moeda e intervenção.
Principais pontos:
- Parte sempre do indivíduo que age com fins e meios – a praxeologia misesiana.
- Reconstrói:
- teoria subjetiva do valor;
- estrutura de produção no tempo;
- papel do empreendedor;
- efeitos de impostos, controles de preço, subsídios, monopólios legais etc.
- Conclusão recorrente: cada interferência estatal distorce o sistema de preços, descoordena a estrutura de produção e reduz o bem‑estar comparado ao livre mercado.
Em apêndice (depois publicado separadamente como Power and Market), ele faz uma análise minuciosa de políticas públicas: tributação, apoio à empresa “nacional”, tarifas, salário mínimo, regulações, mostrando mecanismo por mecanismo onde surgem perdas e incentivos perversos.
“For a New Liberty”: o manifesto libertário
Se Man, Economy, and State é o tratado técnico, “For a New Liberty: The Libertarian Manifesto” (1973) é a versão para o público geral.
- Ele apresenta o libertarianismo de forma integrada:
- histórico: raízes em Locke, Smith, Revolução Americana;
- filosófico: auto‑propriedade, NAP, homestead;
- prático: como isso se aplicaria em:
- segurança;
- justiça;
- educação;
- saúde;
- drogas;
- meio ambiente;
- política externa.
Pontos de destaque:
- Liberdades civis amplas: “comportamentos desviantes” – deve ser legal enquanto não violar direitos de terceiros, pois não há vítima coagida.
- Serviço militar obrigatório é condenado como forma de escravidão.
- Guerra é vista como uma das maiores agressões: sempre mata inocentes em massa; logo, é praticamente sempre injustificável do ponto de vista libertário.
For a New Liberty é o livro que transforma o libertarianismo em “manual completo de sociedade”, influenciando gerações de libertários e parte da New Right americana.
“The Ethics of Liberty”: fechando o sistema ético
Em “The Ethics of Liberty”, Rothbard leva o sistema até seu ponto máximo de rigor:
- retoma a tradição de lei natural para fundamentar direitos individuais;
- formula, em detalhes, uma teoria de:
- auto‑propriedade;
- propriedade externa;
- contrato;
- punição e restituição.
Ali está o famoso trilema da auto‑propriedade (ou Rothbardian trilemma):
ou cada um é dono de si,
ou alguns são donos de outros,
ou todos são donos de todos – e apenas a primeira opção gera uma ética universalizável.
Estado, propriedade e “desestatização radical”
Um ponto especialmente provocador em Rothbard é a visão de propriedade estatal:
- “Qualquer propriedade nas mãos do Estado está nas mãos de ladrões e deve ser liberada o quanto antes.”
- Bens públicos: devem ser privatizados, preferencialmente restituídos a quem foi espoliado:
Também critica arranjos que ele chama de “capitalismo de Estado”: parcerias promíscuas entre grandes empresas e governo, onde privilégios, subsídios e regulações sob medida distorcem a competição. Para Rothbard, isso não é “mercado”, é cartel político‑econômico.
Por que Rothbard segue relevante (especialmente hoje)
Alguns motivos pelos quais Rothbard continua “batendo” no contexto atual:
- Estados gigantes e endividados
Com gastos públicos e dívidas crescentes, a crítica a impostos, bancos centrais e expansão de crédito forçado ganha tração. Rothbard radicaliza a linha austríaca, chamando a atenção para a natureza intrinsecamente coercitiva da máquina fiscal‑monetária. - Capitalismo de compadrio
Escândalos envolvendo bancos, empreiteiras, subsídios e BNDES‑da‑vida são exemplares do “state capitalism” que ele distingue do livre mercado saudável. Sua análise ajuda a separar mercado genuíno de privilegiados de Estado. - Guerra, OTAN, intervencionismo
Em um mundo com intervenções militares constantes, a crítica rothbardiana à guerra como agressão massiva e sistemática – frequentemente apoiada por elites empresariais e tecnocráticas – fala direto ao cenário atual. - Surveillance state e controle digital
A desconfiança de Rothbard quanto ao poder concentrado do Estado ganha nova dimensão com:- vigilância em massa;
- tentativas de controlar discurso online;
- uso de bancos centrais para rastrear e potencialmente limitar transações (moedas digitais de banco central).
- Busca por coerência radical
Em um tempo em que quase todo mundo defende “liberdade, mas…” (sempre com exceções convenientes), Rothbard oferece algo raro: um sistema de princípios levado até o fim, sem concessões. Pode‑se discordar do resultado, mas a coerência interna é justamente o que o torna intelectualmente instigante.
Síntese final dos ensinamentos de Rothbard
Em termos bem concentrados, o “pacote Rothbard” oferece:
- Uma base ética:
Auto‑propriedade + homestead + não‑agressão como estrutura de direitos individuais. - Uma visão jurídica:
Lei como descoberta de regras compatíveis com NAP, não como decreto estatal; ênfase em restituição à vítima, não apenas punição. - Uma teoria econômica coerente:
Economia austríaca como ciência da ação, aplicada para mostrar por que intervenção, subsídio, cartel e bancos centrais destroem coordenação e prosperidade. - Uma crítica total do Estado:
O Estado não é “árbitro neutro”, mas organização monopolista de agressão e expropriação sistemática. - Uma visão positiva de ordem espontânea:
Justiça, segurança, infraestrutura e serviços sociais podem emergir de contratos privados, associações voluntárias e mercados concorrenciais, sem comando central.
Para alguém libertário, cético com Estado e fascinado por coerência lógica, Rothbard é, ao mesmo tempo, munição teórica e teste de stress intelectual: ele força a pergunta até o fim – se você realmente leva a sério propriedade, contrato, responsabilidade individual e não agressão, quanto de Estado ainda consegue justificar sem entrar em contradição?
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