Sem dúvida alguma vivemos hoje uma crise de comunicação generalizada. Se no âmbito social ela se manifesta na polarização política e na desinformação, no plano íntimo, ela se revela naquilo que passamos a chamar de “solidão a dois”.
Milhões de casais e famílias caminham lado a lado, mas habitam bolhas mentais distintas, presas em um ciclo vicioso de suposições e expectativas não ditas. A comunicação, que deveria ser a ponte entre esses dois mundos, transformou-se em um exercício de obrigações e adivinhações.
Nunca o SER HUMANO esteve tão isolado mesmo cercado por diferentes tipos de aparelhos e pessoas. Podemos estar até caminhando juntos. Mas cada um habitando em uma bolha própria.
Este fenômeno não é um mero desajuste emocional, mas sim o resultado de uma arquitetura de comunicação falha, que para ser melhor compreendida gosto de separá-la em um conjunto bem definido de seis camadas estruturais. Entender essa dinâmica é o primeiro passo para resgatar o diálogo e a intimidade. E com isso fugir do caos que tem levado a disputas e brigas intermináveis que estão condenando muitos relacionamentos à morte.
1. A Armadilha da Adivinhação: vínculos se dissolvendo
A primeira camada que precisamos conhecer forma o cerne dessa crise de comunicação e reside na “Armadilha da Adivinhação”. Nessa camada instala-se a perigosa crença de que o parceiro, por amar, “deveria saber” o que sentimos, queremos ou precisamos. O diálogo é substituído por um teste silencioso de telepatia.
Quando a adivinhação falha – e ela sempre falha, pois relacionamentos não são telepatia –, a frustração se instala, e a mágoa é erroneamente direcionada ao caráter do outro, e não à falha de comunicação. Essa primeira armadilha é o ponto que se subdivide em outros seis hábitos que acabam corroendo a base do relacionamento:
- 1. Informação sem Conexão: O diálogo começa a desaparecer e se estabelece apenas a troca de dados logísticos (contas, horários, tarefas) em detrimento da partilha de sentimentos. O casal sabe “o que” o outro faz, mas não “como” o outro está. Cria-se um vazio emocional que tende a aumentar até que ambos já não conseguem se entender mais naqueles assuntos que fogem dessa rotina administrativa do relacionamento.
- 2. Mediação de Expectativas: Logo a seguir o casal entra nesta fase. O “algoritmo” – ou a dinâmica do relacionamento que cada casal constrói – tenta prever e controlar o comportamento do outro. Não se trata de cuidado ou preocupação com o outro, é o instinto de sobrevivência e preocupação ocupando os buracos relacionais que vão surgindo. O diálogo é substituído por suposições não atualizadas, gerando uma dinâmica de frustrações constantes.
- 3. Economia da Atenção Íntima: A disputa por telas e engajamento digital toma os espaços e o tempo de qualidade do relacionamento acaba sendo sacrificado. Então a sensação de solidão a dois ganha os contornos permanentes. O foco está no mundo externo, não nos vínculos da relação.
- 4. Bolhas de Convivência Paralela: O casal habita o mesmo espaço físico, mas consome realidades e focos mentais distintos. Essa perda do “espaço comum” e do interesse genuíno pela vida interior do parceiro é um processo contínuo que torna a relação cada vez mais fria.
- 5. A Polarização Afetiva: Instala-se no lar com divergências cotidianas (sobre finanças, criação de filhos, etc.) que passam a ser tratadas como ataques pessoais. O parceiro deixa de ser um aliado e passa a ser visto como um adversário a ser vencido.
- 6. Armadilha da Adivinhação (Consolidação): Então ambos passam a viver sob o domínio total desta armadilha. Nesse ponto a expectativa sempre é de que o outro “deve saber” o que se passa internamente. O silêncio mata quase todo o diálogo. A distância só aumenta enquanto caminham juntos. Cada um culpando o outro pelo resultado frustrante do relacionamento. Os vínculos afetivos que foram criados e eram cultivados com empenho passam pelo processo de enfraquecimento até que definam até o desaparecimento.
2. O Roubo da Atenção e a Solidão Digital – a falsa sensação de pertencimento digital
A Economia da Atenção Íntima (3) que tratei na primeira camada que expliquei é um dos fatores mais traiçoeiros da crise moderna de comunicação. A lógica das redes sociais, que nos treinou a buscar gratificação instantânea e a priorizar o “feed” infinito, invadiu o lar. A atenção, que é o nutriente fundamental de qualquer relacionamento, é desviada para o celular.
E o resultado é a triste realidade da solidão digital. Estamos conectados ao mundo, mas desconectados de quem está ao nosso lado. Essa distorção do foco, somada a uma escuta ativa, impede a atualização mútua, levando à Mediação de Expectativas (2). Ninguém consegue compreender o outro. O parceiro não consegue mais prever o que se passa com o outro porque a informação mais importante – o sentimento – não está sendo compartilhada, apenas a logística.
3. Da Divergência ao Antagonismo: A Polarização no Sofá
Uma boa parte dos casais que chegam ao consultório foi levado para lá porque a Polarização Afetiva (5), que observamos nas discussões políticas, já tem seu reflexo devastador no ambiente doméstico. A falta de comunicação genuína transforma a divergência em antagonismo. Qualquer motivo justifica uma nova discussão que geralmente não se resolve.
Pois quando a comunicação se resume a dados e expectativas não ditas, qualquer conflito é percebido como uma ameaça existencial ao relacionamento. O parceiro não é mais visto como um ser humano complexo com falhas e virtudes, mas como um obstáculo a ser superado. A discussão deixa de ser sobre o problema e passa a ser sobre quem está certo ou errado, minando a confiança e a segurança emocional.
4. O Resgate da Vulnerabilidade Corajosa
A crise de comunicação nos relacionamentos é, em última análise, uma crise de tradução. Nenhum dos dois consegue entender o que o outro quer e precisa. Ou seja, paramos de nos “traduzir” um para o outro, esperando que o amor seja suficiente para decifrar o silêncio.
Para reverter esse quadro, é preciso um ato de vulnerabilidade corajosa de qualquer uma das partes inicialmente. Mas quem terá a coragem de ceder frente a um mundo cada vez mais movido por egocentrismos e comportamentos narcisistas?
Se você está disposto a manter seu relacionamento, eu tenho algumas dicas importantes que listei abaixo:
- Pare de Adivinhar: Assuma que você não sabe o que o outro pensa ou sente. Então pergunte, peça explicação até você compreender de fato o que o seu parceiro está querendo ou precisando.
- Aprenda a Traduzir-se: Expresse suas necessidades e sentimentos de forma clara, sem esperar que o parceiro deduza. Depois ainda cheque fazendo ao outro uma simples pergunta: o que você entendeu a partir do que eu te disse?
- Tenha a iniciativa e coragem de Desligar a Tela: Crie momentos de atenção plena, onde o foco esteja exclusivamente no vínculo entre vocês. Deixe celulares e demais aparelhos longe do alcance nesses instantes, demonstre que o outro tem importância.
- Busque sempre o Aliado: Lembre-se que o parceiro é seu aliado, não seu adversário. O problema é o problema, não a pessoa.
Definitivamente somos seres relacionais que se ligam pelo amor. E esse sentimento é uma força poderosa que se alimenta exclusivamente da comunicação. Se queremos caminhar juntos sem aumentar a distância, alimentando e aumentando os vínculos, precisamos urgentemente abandonar a armadilha da adivinhação.
Somos seres instáveis e por isso a imprevisibilidade também nos acompanha. Portanto, resgatar a arte de nos traduzir um para o outro é a maior necessidade do momento. A intimidade não é um presente, é uma construção diária de pontes feitas de palavras.
Paulo Lovi é jornalista, psicanalista e mestrando em Neuropsicologia. Especialista em relacionamentos e tratamento de vícios, incluindo a dependência digital.
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