Em agosto de 2026, a SpaceX preparava o 14º voo de teste da Starship — o maior foguete já construído pela humanidade, com o objetivo de colocar em órbita satélites, retornar a nave à Terra e capturá-la no solo pela primeira vez na história. Um foguete que vai ao espaço. Volta. Pousa. E pode ser usado de novo.
Na mesma semana, o governo brasileiro anunciava orgulhosamente que o programa “Gás do Povo” havia alcançado 15 milhões de famílias — aproximadamente 50 milhões de pessoas — que precisam de ajuda do Estado para comprar um botijão de gás de cozinha. Um botijão de gás. De cozinha. Em 2026.
Na CES 2026, realizada em janeiro em Las Vegas, empresas como NVIDIA, Samsung, LG e Lenovo apresentaram aplicações de IA capazes de tomar decisões sem intervenção humana direta. Robôs humanoides apareceram não como demonstrações futuristas, mas como plataformas voltadas a tarefas reais em fábricas, logística, saúde e serviços.
Na maior feira de tecnologia do ano, foi possível presenciar um robô humanoide imponente marchando, girando a cabeça e acenando para uma multidão empolgada, enquanto robôs quadrúpedes semelhantes a cães circulavam pelo salão, projetados para finalidades que vão desde jogar xadrez até realizar cirurgias na coluna.
Em 2025, a Waymo expandiu seus robotáxis para mais cidades americanas, a Zoox da Amazon começou a transportar passageiros sem lista de espera em Las Vegas e São Francisco, e os robotáxis da Tesla chegaram às ruas de Austin, no Texas. Em 2026, a expansão continua para Miami, Dallas, Houston e para a Costa Leste americana. Carros sem motorista.
A Starship, o maior foguete já construído, realizou seu 13º voo de teste em julho de 2026, e a SpaceX planeja ainda neste mês o 14º voo, com o objetivo de colocar em órbita satélites Starlink e retornar a parte superior do foguete à Terra pela primeira vez. A empresa investiu US$ 15 bilhões no programa e planeja eventualmente realizar milhares de lançamentos por ano, com foco na colonização de Marte.
Enquanto isso, Elon Musk planeja colonizar Marte. Jeff Bezos financia viagens orbitais de turismo. A China construiu uma estação espacial. O Japão desenvolve um elevador espacial. A inteligência artificial diagnostica câncer com precisão superior à de especialistas. Robôs realizam cirurgias de coluna. Carros dirigem sozinhos em cidades reais. E o Brasil está administrando uma fila para botijão de gás.
O programa Gás do Povo, que substituiu o Auxílio Gás dos Brasileiros em 2025, prevê a concessão de recargas gratuitas de botijões de gás de cozinha de 13kg para famílias beneficiárias e já alcançou mais de 15 milhões de famílias.
O programa busca diminuir o efeito do preço do gás de cozinha para as famílias de baixa renda, inscritas no Cadastro Único, com renda per capita mensal menor ou igual a meio salário mínimo, priorizando beneficiários do Bolsa Família.
Traduzindo: em 2026, o Brasil tem 50 milhões de pessoas que não conseguem comprar um botijão de gás sem ajuda do governo. Cinquenta milhões. É mais gente do que a população inteira da Argentina, do Chile, da Bolívia e do Uruguai juntos.
E o Bolsa Família atende 21 milhões de famílias. Com R$ 600 por mês. O valor permanece em R$ 600,00 em 2026, sem previsão de aumento.
Seiscentos reais por mês. Para uma família. Enquanto a cesta básica em São Paulo consome 65% de um salário mínimo..
Qual é o plano para que essas 50 milhões de pessoas não precisem mais do botijão de gás gratuito?
Não existe plano. Nunca existiu. Porque o plano real que o governo possui é que essas pessoas continuem dependentes. Dependência gera voto. Voto gera poder. Poder gera mais dependência. É um ciclo fechado, perfeito e monstruoso.
Até 2026, um terço dos robôs inteligentes deve alcançar o nível 3 de inteligência, podendo operar sem intervenção humana, com impacto em setores como manufatura, energia e construção. O mundo está construindo trabalhadores que não precisam de salário, não adoecem, não tiram férias, não se aposentam.
E o Brasil está debatendo se o valor do Bolsa Família deveria subir de R$ 600 para R$ 700.
O Brasil gasta R$ 170 bilhões por ano no Bolsa Família. Para manter famílias sobrevivendo. Não prosperando. Sobrevivendo.
Não estou dizendo que transferência de renda é errada em si. Estou dizendo que transferência de renda como política permanente sem contrapartida de desenvolvimento, sem saída, sem horizonte de autonomia é a institucionalização da miséria. É o Estado dizendo: “você é pobre, vai continuar pobre, e nós vamos administrar a sua pobreza em troca do seu voto.”
É lamentável que “quem tirou o povo da pobreza e matou a fome” ainda faça esse tipo coisa em pleno 2026, é um retrocesso completo e, infelizmente, essa ainda é a ilusão de muitos.
A automação vai eliminar empregos. Já está eliminando. E quando o caixa de supermercado, o motorista de caminhão, o operador de empilhadeira e o atendente de telemarketing forem substituídos por máquinas e tendem a ser mais rápido do que qualquer previsão conservadora sugere, o que vai acontecer com a legião de brasileiros que nunca foram preparados para nada?
Enquanto o mundo constrói foguetes que voltam sozinhos da órbita terrestre e pousam com precisão milimétrica para serem reutilizados, o Brasil está otimizando o sistema de distribuição de voucher para botijão de gás. Enquanto robôs humanoides aprendem a realizar cirurgias de coluna, o Brasil debate o calendário de pagamento do Bolsa Família. Enquanto carros autônomos circulam em dezenas de cidades americanas sem motorista, o Brasil implementa um aplicativo — o “Meu Social” — para que famílias de baixa renda possam consultar se estão na fila do gás. Um aplicativo. Para consultar a fila do gás.
A democracia tem um problema estrutural que Nietzsche já identificava: ela tende a recompensar o curto prazo e punir o longo prazo. Bolsa Família dá voto agora. Escola técnica de qualidade dá resultado em 2040. Nenhum político racional investe em 2040 quando a eleição é em 2026. Então temos o que temos: um país que cresce menos que a média mundial há 15 anos, que gasta mais de 40% do PIB em impostos, que tem uma das maiores cargas tributárias do mundo e uma das piores infraestruturas do mundo, e que distribui botijão de gás para 50 milhões de pessoas enquanto chama isso de política pública.
Por quanto tempo ainda vamos preferir administrar a miséria a superá-la?
Tem algo interessante acontecendo por aí?
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