Quem foi Ludwig von Mises – contexto rápido
- Nascido em 1881, no Império Austro‑Húngaro, e falecido em 1973, em Nova York.
- Principal nome da Escola Austríaca de Economia no século XX.
- Formado em direito e economia, atuou como acadêmico, conselheiro econômico e intelectual público.
- Suas obras centrais incluem “Ação Humana” (Human Action), “Cálculo Econômico no Socialismo”, “Teoria do Dinheiro e do Crédito” e “Socialism”.
Mises se vê menos como “técnico de modelos” e mais como teórico da ação humana em sociedade. Economia, para ele, é um ramo de uma ciência mais ampla: a praxeologia.
Praxeologia: tudo começa na ação humana
O ponto de partida de Mises é quase filosófico:
“Ação humana é comportamento proposital.”
Ou seja, toda ação pressupõe:
- Desconforto (uma insatisfação com o estado atual);
- Imagem de um estado melhor;
- Crença de que agir pode reduzir esse desconforto.
A partir desse axioma – “o homem age” – Mises constrói a praxeologia, a ciência lógica da ação:
- A praxeologia não é estatística nem laboratório; é dedutiva, como lógica ou matemática.
- Estuda o que é necessariamente verdadeiro sobre toda ação, independente de tempo e lugar.
- Por isso, Mises rejeita o positivismo em economia (a ideia de que é preciso testar tudo como em física): há leis que decorrem logicamente do fato de que o homem age.
Implicações centrais:
- A unidade de análise é sempre o indivíduo (metodological individualism). Coletivos só agem por meio de indivíduos.
- Valores são subjetivos: não existem “valores objetivos” de bens; o que existe são preferências individuais que se expressam nas escolhas e nos preços.
- Como as ações são guiadas por fins, não faz sentido falar em “irracionalidade” da ação; o oposto de ação não é o “irracional”, mas o reflexo involuntário. Se alguém escolhe algo, é porque isso atende, naquele momento, a sua hierarquia de fins.
Mercado, preços e coordenação social
A partir da praxeologia, Mises enxerga o mercado como um gigantesco sistema de coordenação descentralizada de ações individuais:
- Cada pessoa age com objetivos próprios, conhecimento limitado e preferências subjetivas.
- Ao trocar, ela revela suas avaliações na forma de preços.
- Esses preços agregam informações dispersas e permitem que milhões de indivíduos coordenem decisões de produção, consumo e investimento sem um “cérebro central”.
Preços como sinais indispensáveis
Mises insiste que preços monetários de bens de capital (máquinas, fábricas, insumos) são indispensáveis para qualquer cálculo racional de custos, lucros e perdas.
Sem preços:
- Não se sabe se um projeto desperdiça ou poupa recursos.
- Não se consegue comparar alternativas tecnicamente possíveis, mas economicamente distintas.
- Não há como classificar usos mais e menos valiosos dos fatores de produção.
Daí nasce o núcleo da crítica de Mises ao socialismo.
O problema do cálculo econômico no socialismo
No ensaio clássico “Cálculo Econômico na Comunidade Socialista” (1920), Mises formula o argumento que o tornaria famoso:
sem propriedade privada dos meios de produção, não há mercado de bens de capital; sem esse mercado, não há preços; sem preços, não há cálculo econômico; sem cálculo, não há economia racional.
Resumindo o raciocínio:
- No socialismo, o Estado é dono de todas as fábricas, terras, máquinas etc.
- Como esses ativos não são trocados entre proprietários diferentes, não existem preços de mercado para eles.
- Sem preços reais, o planejador central não consegue:
- saber se um hospital custa “muito” ou “pouco” em termos de aço, cimento, mão de obra;
- comparar 10 projetos mutuamente excludentes em termos de custo de oportunidade.
- O planejamento se torna cegueira organizada: decisões baseadas em impressões políticas, intenções morais ou cálculos contábeis arbitrários, não em verdadeira escassez relativa.
Por isso Mises conclui: o socialismo é economicamente impossível, não apenas ineficiente. Ele destrói justamente o mecanismo que permitiria saber se algo é eficiente.
Moeda, crédito e ciclos econômicos
Outra área central do pensamento de Mises é a teoria da moeda e dos ciclos.
Teoria do dinheiro
Em “The Theory of Money and Credit”, Mises desenvolve uma visão integrada de:
- origem da moeda a partir de trocas de mercado;
- papel dos bancos;
- efeitos da expansão de crédito.
Ele vê com extrema desconfiança:
- manipulação da moeda por governos;
- bancos centrais expandindo crédito artificialmente;
- política de juros baixos como solução para crises.
Teoria Austríaca do Ciclo Econômico (TACE)
Aplicando a lógica da ação e dos preços, Mises argumenta:
- quando bancos centrais expandem crédito e baixam juros artificialmente, enviam sinais falsos ao mercado;
- empresários interpretam juros baixos como se houvesse mais poupança real disponível para investimentos de longo prazo;
- isso gera uma onda de “malinvestimentos” – projetos que só parecem viáveis àquelas taxas artificiais.
Quando a realidade da escassez aparece (inflação, estouro de bolhas, inadimplência), esses investimentos precisam ser liquidados, resultando em:
- recessões,
- desemprego,
- fechamento de empresas.
Para Mises, então, o ciclo é um filho ilegítimo da intervenção monetária, não uma “falha do mercado”.
Liberalismo: a aplicação política da praxeologia
Mises é cristalino: liberalismo clássico não é uma religião, mas a aplicação prática do que a ciência econômica descobre sobre cooperação social.
Alguns pontos-chave:
- A cooperação social em grande escala só é possível com:
- propriedade privada,
- liberdade de contrato,
- mercado livre,
- estado de direito.
- A tentativa de “corrigir” o mercado por meio de controles de preços, subsídios, proibições e regulações arbitrárias desorganiza o sistema de preços, gerando efeitos colaterais piores que o problema original.
- Cada intervenção cria distorções que, por sua vez, são usadas como pretexto para novas intervenções – o que Mises chama de “caminho para o socialismo por etapas”.
Ele resume sua visão de forma contundente:
“A economia de mercado não apenas supera qualquer sistema planejado, mas é o verdadeiro fundamento da civilização.”
Individualismo metodológico e crítica ao coletivismo
Outro ensinamento central de Mises é a defesa do individualismo metodológico:
- Só indivíduos agem. “Sociedade”, “Estado”, “classe” são abstrações; sempre que se fala que “a sociedade decidiu”, significa que alguns indivíduos, em nome dela, decidiram.
- Por isso, qualquer teoria que trate “coletivos” como sujeitos com vontade própria tende a encobrir relações reais de poder.
Essa postura o leva a uma crítica frontal a:
- ideologias coletivistas (socialismo, comunismo, nacionalismo estatizante, corporativismo);
- concepções que sacrificam direitos individuais a abstrações como “bem comum” definido por tecnocratas ou partidos.
Atualidade de Mises – por que ainda importa?
Vários pontos do pensamento de Mises continuam extremamente relevantes:
Estados inchados e planejamento implícito
Mesmo sem socialismo “clássico”, muitas economias operam com:
- alta carga tributária,
- empresas estatais,
- bancos públicos gigantes,
- controle de crédito,
- subsídios direcionados,
- reserva de mercado.
Na prática, isso recria “ilhas de socialismo” dentro da economia de mercado – com problemas muito semelhantes aos descritos por Mises: má alocação de recursos, ineficiência, corrupção, captura política.
Síntese final dos ensinamentos de Mises
Em poucas linhas, os principais ensinamentos de Ludwig von Mises:
- Toda análise social séria começa na ação humana individual.
Sem entender como indivíduos agem, qualquer teoria econômica é fantasia. - Preços de mercado não são números arbitrários, mas condensados de informação sobre escassez e preferência.
Destruí-los por decreto destrói a capacidade de cálculo. - Socialismo não é apenas ineficiente: é incapaz de calcular racionalmente.
Sem propriedade e preços de capital, não há como saber o que fazer com os recursos. - Ciclos econômicos são produzidos, em grande parte, por interferências monetárias estatais.
Crédito fácil hoje é crise amanhã. - Liberalismo é a tradução política da ciência da ação humana.
Não é dogma moral, mas consequência lógica do entendimento de como cooperação social funciona. - Toda vez que o Estado tenta “corrigir” o mercado por intervenção direta, abre-se um ciclo de distorções que leva a mais intervenção.
O caminho ao socialismo é muitas vezes feito de pequenos decretos “bem‑intencionados”.
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