Imagine a seguinte cena… você aluga um imóvel, paga o depósito em dinheiro, recebe um recibo escrito à mão e, meses depois, o locador nega que recebeu qualquer valor. Ou então você combina um prazo com seu chefe por mensagem de voz, cumpre tudo certinho e, na hora do acerto, ele jura que nunca disse aquilo. Ou ainda, você empresta dinheiro a um amigo, sem papel assinado, e quando cobra, ouve um “não me lembro disso”.
Senhores… nesses momentos, uma pergunta é feita, você tem testemunha?
No Direito, existe um princípio que o senso comum ainda reluta em aceitar. A verdade que não se prova, juridicamente falando, não existe.
Não importa o quanto você sabe o que aconteceu. Não importa que você seja honesto. Se você não consegue demonstrar ao juiz o que ocorreu, a versão contrária pode prevalecer.
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Palavra Contra Palavra. Quem Perde?
Quando duas pessoas chegam a um processo com versões opostas e nenhuma delas tem prova, o juiz se vê diante de um impasse. Ele não esteve lá. Ele não sabe quem está mentindo. E o Direito tem um critério para isso, o ônus da prova, ou seja, a obrigação de provar recai sobre quem afirma.
Na prática, isso significa que, se você diz que foi prejudicado, cabe a você demonstrar isso. E se você não conseguir, a decisão pode ir contra você, não porque o juiz acha que você mentiu, mas porque o sistema não trabalha com achismo. Ele trabalha com evidência.
A boa notícia é que o conceito de “prova” mudou muito nas últimas décadas. O Direito evoluiu junto com a vida das pessoas e hoje, aquela conversa no WhatsApp pode valer tanto quanto um contrato formal, dependendo do contexto.
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O Que Vale Como Prova Hoje?
Muito mais do que você imagina. Veja alguns exemplos que separei para você:
Mensagens de WhatsApp e outros aplicativos podem sim ser usadas como prova em processos judiciais. Conversas que documentam combinados, cobranças, ameaças, acordos ou confissões já foram determinantes em casos trabalhistas, cíveis e até criminais. Um detalhe importante, o ideal é que essas mensagens sejam autenticadas, ou seja, que fique comprovado que vieram de quem se diz que veio. Por isso, nunca delete conversas que possam ser relevantes.
E-mails corporativos e pessoais têm grande valor probatório, sobretudo em relações de trabalho. Se você combinou algo por e-mail, essa mensagem pode ser a diferença entre ganhar e perder uma ação. Guarde.
Áudios e gravações geram mais dúvida nas pessoas, mas a regra geral no Brasil é que gravar uma conversa da qual você mesmo participa não é ilegal, é o que se chama de gravação clandestina lícita. Você não precisa avisar ao outro que está gravando, desde que seja você mesmo o participante daquela conversa. Já gravar terceiros sem participar é outra história.
Fotos e vídeos documentam estados de coisas, um imóvel danificado, um produto entregue com defeito, uma situação de assédio em ambiente de trabalho. Uma foto com data e horário pode ser prova poderosa.
Documentos escritos, mesmo que simples, ainda são rei. Um recibo, uma nota, uma carta, um contrato, quanto mais formal, melhor. Mas um bilhete assinado à mão, em muitos casos, já é suficiente para demonstrar um acordo.
Testemunhas continuam importantes, mas têm limitações. Lembre-se de que testemunha que é amigo íntimo ou parente próximo são informantes, costuma ter seu peso reduzido pelo juiz, não por desonestidade presumida, mas porque o vínculo pode gerar suspeição. A testemunha ideal é alguém que viu ou ouviu e não tem interesse no resultado.
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Documentar é um Ato de Cidadania
Existe uma cultura no Brasil de que “contrato é coisa de desconfiado”. Que pedir recibo estraga a relação. Que formalizar um acordo parece ofensa. A cultura custa caro, e quem paga a conta geralmente é quem mais precisava de proteção.
Documentar é responsabilidade. É cuidado com você mesmo e com a outra parte. Um contrato bem feito protege os dois lados.
Não é preciso ser advogado para desenvolver esse hábito. Basta começar com o básico.
Confirme por escrito o que foi combinado verbalmente. Um simples “só confirmando o que conversamos: o prazo é dia 10 e o valor é R$ 500” enviado por mensagem pode fazer toda a diferença se algo der errado. Peça recibo quando pagar em dinheiro. Guarde notas fiscais, contratos, e-mails e prints relevantes. Antes de entregar ou receber algo importante, registre o estado das coisas (uma foto já basta).
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Quando Já É Tarde: O Que Fazer?
Se você se encontra em uma situação em que não tem provas e precisa provar algo, nem tudo está perdido.
Um advogado pode ajudá-lo a explorar recursos como o depoimento pessoal da parte contrária, a prova indiciária (aquela construída a partir de indícios e circunstâncias), a análise de metadados de arquivos digitais ou até a perícia em dispositivos.
Mas não espere chegar a esse ponto. O melhor advogado preventivo que existe não cobra honorários, esse advogado é o seu próprio cuidado no dia a dia.
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O Papel Não Mente
Por isso, da próxima vez que fechar um acordo, fazer um pagamento importante ou combinar algo que pode virar problema no futuro, lembre-se que a memória falha, as pessoas mudam e os conflitos acontecem.
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Geovani Menezes é advogado na Menezes Advocacia, atuando em causas trabalhistas e cíveis. Geovani também é mestre em Ciências Jurídicas e Doutorando em Direito pela Universidade Cesumar – UniCesumar (Campus Maringá/PR), foi bolsista do Programa de Suporte à Pós-Graduação de Instituições de Ensino Particulares (PROSUP/CAPES). Pós-graduado em Direito Civil e Processo Civil, também possui especialização em Direito Notarial e Registral pelo Centro Universitário Cidade Verde – UniCV (Maringá/PR). Pesquisador. Desenvolve pesquisas em direito com enfoque nas áreas de direitos da personalidade, desjudicialização e acesso à justiça.
Geovani também é colunista do portal cidadenoar.com, autor da coluna Direito Notarial e Registral, na qual aborda temas relacionados aos cartórios, direitos da personalidade e à função cidadã do extrajudicial.
Contato: geovani_menezes@hotmail.com.br.
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