Repositório com mais de 250 rotinas de instrução alimenta agentes que atuam em dez frentes, de prospecção a segurança da informação; consultoria combina Claude, ChatGPT, Perplexity e Manus AI, e mantém validação humana em todas as entregas antes de chegarem ao cliente.
Quando um projeto de reestruturação comercial entra na Traction X, o desenho de time é o mesmo que qualquer consultoria montaria: um estrategista para desenhar a rota, um analista para cruzar os dados de funil, um redator para os materiais, um desenvolvedor e um designer para os ativos digitais, um gestor para tocar os prazos. Seis pessoas.
Na Traction X, o projeto é executado por uma. Danilo Bonfim, fundador da empresa, distribui a camada operacional dessas funções entre agentes de inteligência artificial e softwares integrados, e reserva para si a definição de direção, a validação das entregas e a relação com o cliente.
A consultoria não tem funcionários fixos. Bonfim aciona empresas parceiras e freelancers em frentes específicas para garantir a qualidade da operação, a revisão de tudo produzido pelas tecnologias e a implementação, mas afirma resolver a maior parte da operação com agentes conectados a sistemas que cobrem cada etapa do processo. Desde a fundação, a empresa afirma ter atendido mais de 500 companhias incluindo o Grupo Ambipar, Fast Shop, Stefanini, Sociedade Nacional de Agricultura e Ademicon, e calcula que os projetos passaram por operações que movimentam, somadas, cerca de R$ 10 bilhões em receita. Com quase 30 mil seguidores no LinkedIn, ele compartilha diariamente os aprendizados desse processo.
“Não tem como não ter o viés e inteligência humana em todo processo. A IA otimiza o trabalho, o esforço e operacional muito grande. Nos permite escalar bem mais rápido, algo que seria inimaginável sem as IAs, mas as decisões de negócios estão nas nossas mãos. Trabalho muito perto dos meus parceiros nos projetos maiores, sempre as implementações são feitas por um ser humano”, explica Bomfim.
Dez frentes, um repositório
O núcleo da operação é um repositório interno com mais de 250 rotinas de instrução, arquivos reutilizáveis que definem como cada agente executa uma tarefa específica, do critério de qualificação de um lead ao padrão de código de uma integração. A partir dessa base, a Traction X opera agentes em dez frentes:
- Prospecção e qualificação de leads
- Criação de conteúdo
- Design
- Growth e go-to-market
- Campanhas de tráfego pago no Meta e no Google
- Desenvolvimento de ferramentas internas
- Front-end, back-end e banco de dados
- Segurança da informação
A escolha da tecnologia depende da natureza da tarefa. Fluxos previsíveis, como a passagem de um formulário para o CRM, seguem em automações determinísticas. Os agentes entram onde há análise de informação, uso de ferramentas e interação com outros sistemas: prospecção, qualificação e diagnóstico, principalmente. A operação combina Claude, ChatGPT, Perplexity e Manus AI, cada um acionado conforme a etapa.
O gargalo que motivou a arquitetura não é a estratégia, e sim o que a antecede: levantar informação sobre uma conta antes da abordagem, cruzar planilhas para descobrir onde a receita vaza, escrever a proposta, montar o material, registrar o que ficou decidido em reunião. Cada uma dessas etapas é o que normalmente justifica mais uma contratação em uma consultoria pequena.
A tese de Bonfim é que essas etapas são executáveis, não decisórias e, portanto, delegáveis.
O caso: seis funções em um projeto
Um dos trabalhos recentes é um blueprint de inteligência comercial cobrindo marketing, vendas e customer success. O objetivo era mapear os silos entre as três áreas e aumentar a conversão. Em estrutura tradicional, o escopo ocuparia seis profissionais.
Os agentes organizaram os dados do negócio, mapearam os processos, identificaram os gargalos, estruturaram a estratégia, geraram a documentação, desenvolveram os ativos digitais e configuraram as automações. Bonfim definiu a direção, validou as entregas e tomou as decisões.
Segundo a empresa, o projeto resultou em aumento de 250% no indicador acompanhado pelo cliente, economia de R$ 75 mil e redução de 70% no tempo de execução.
O que não é delegável
Com a operação distribuída entre agentes, o papel do fundador muda de executor para revisor. Bonfim acompanha os resultados produzidos pelos sistemas e verifica se as tarefas foram executadas corretamente, mas a responsabilidade pela entrega não se transfere. Toda saída gerada por IA passa por revisão antes de chegar ao cliente, e os erros identificados retroalimentam as rotinas do repositório.
“A IA não pensa, ela executa. Quem pensa sou eu. É isso que separa uma operação que funciona de uma que quebra. Ela me dá velocidade. A direção sou eu”, explica Danilo Bonfim, founder e CEO da Traction X
Fora do escopo dos sistemas ficam a experiência acumulada, o julgamento comercial, a leitura de contexto do cliente e a responsabilidade pelas decisões.
Por que o caso interessa além da Traction X
As empresas de uma só pessoa não são novidade, o IBGE registrou 9,4 milhões de empresas formais ativas em 2022, das quais 6,6 milhões (9,6%) não tinham nenhuma pessoa assalariada, sendo formadas apenas por sócios e proprietários. E esse recorte exclui os MEIs do levantamento, são empresas de porte real operando sem folha. De acordo com a previsão do CEO da OpenAI, Sam Altman, feita em 2024, estamos na era de empresas de uma pessoa só se tornando unicórnios avaliados em US$ 1 bilhão, algo que ele disse ser inimaginável sem IA.
O ponto dessas operações não é dispensar contratações, e sim elevar o teto de execução de estruturas enxutas. Uma consultoria de uma pessoa historicamente não disputava projetos de escopo amplo porque não tinha braço para entregá-los. Com a camada de agentes, o escopo deixa de ser limitado pelo tamanho do time.
O mesmo raciocínio se aplica a empresas de médio porte: as ferramentas que permitem a um consultor cobrir dez frentes permitem a uma equipe de vinte pessoas cobrir o que antes exigiria sessenta. A diferença está na escala, não na natureza do ganho.
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