14/06/2021 às 12h20min - Atualizada em 28/06/2021 às 00h00min

Lugar de Fala: entenda os perigos do conceito que tomou conta dos discursos atuais

A comunicóloga Maytê Carvalho e a advogada especialista em direitos humanos, Mayra Cardozo, são as vozes que explicam os cuidados necessários com o termo de luta utilizado por diferentes grupos e pessoas

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Estar entre as quase oito bilhões de pessoas existentes no mundo pode ser considerado o suficiente para ter algum espaço ou poder de mudança no mundo? Segundo a realidade desigual vivida por grupos minoritários e marginalizados pelos países afora, isso não é  verdade. Por essa questão, se popularizou nos diálogos, virtuais e presenciais, o conceito de “Lugar de Fala”, termo designado para simbolizar a crítica da ausência de representatividade de alguns grupos sociais e para questionar o porquê de algumas vozes serem ouvidas e outras não.


“É importante entendermos que falar não se resume ao ato de emitir palavras, mas expressa o ato de existir no mundo e quem não fala, não existe” aponta Mayra Cardozo, professora e advogada especialista em direitos humanos, além de mentora de feminismo e inclusão. “O fato de alguns grupos sociais não terem a possibilidade de ocupar determinados espaços faz com que não existam registros de suas narrativas e a existência deles acabam sendo invisibilizadas”, complementa a especialista, que é membro permanente do Conselho Nacional de Direitos Humanos da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil). 


Já para Maytê Carvalho, comunicóloga e professora de comunicação da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing) e da Casa do Saber, toda pessoa possui um lugar de fala. A questão, na verdade, gira em torno do lugar no qual a pessoa está falando. “Privilégios, desigualdade social e o reconhecimento desses lugares nos mostram que toda fala possui uma camada sócio-discursiva. Ninguém deve ser silenciado por colocar uma opinião ou um ponto de vista, mas deve-se considerar a topografia do discurso, para não ser uma falácia ad hominem, estratégia comunicativa que busca atacar o caráter do orador silenciando o próximo, ao invés de transformar a situação em um debate de conhecimento e empatia”, explica a autora do livro best-seller “Persuasão” - um guia prático que busca ajudar seus leitores a como usar a retórica e comunicação persuasiva em suas vidas profissionais e pessoais.

Os cuidados necessários

Para as duas profissionais, esse deve ser o maior cuidado com o conceito na atualidade. Isso porque ele, que foi criado para alcançar a liberdade de expressão e promover discussões saudáveis acerca da sociedade e do mundo, vem sendo deturpado e se tornando uma técnica que promove censura e poder, usada por determinados grupos ou pessoas para calar e acuar outros grupos e pessoas que apresentam vivências, lugares e pontos de vistas diferentes daquele que é enaltecido pelo acusador. 


“O ‘Lugar de Fala’ não se consolida em um lugar de disputa de narrativas, mas, sim, de pluralidade e respeito. Logo, o termo pode ser perigoso, se utilizado como forma de imposição de algumas narrativas sobre outras. Porém, essa má utilização deriva apenas da ausência de real compreensão sobre o termo e sobre interseccionalidade, que é a possibilidade do cruzamento de vários assuntos e pontos de vista”, comenta Mayza, que ainda acredita que o termo traz a possibilidade de ouvir vozes e partes de distintas visões que entraram em desentendimento e que não precisam buscar um consenso, mas que devem conquistar uma política de união, em que se preconize o convívio do bem viver.


Para evitar erros e fugir da manipulação apresentada pelo termo, quando utilizado de forma errada, a dica informada pelas especialistas é olhar as diferenças com empatia e analisar a relevância do lugar social que cada ser humano ocupa, usando-a como norte para compreender e reconhecer as oportunidades e privilégios concedidos para cada um. “Eu e a Maytê, por exemplo, possuímos um lugar de fala e, a  partir do reconhecimento dessa localização social de privilégio, podemos debater e refletir sobre os diversos temas da sociedade. No entanto, é importante que nós, enquanto mulheres brancas, cisgênero, e de classe média alta, enxerguemos as hierarquias produzidas a partir do lugar que ocupamos e questionemos o impacto dos nossos privilégios para a constituição de lugares de grupos subalternizados”, finaliza a advogada.


Sobre Maytê Carvalho

Comunicóloga, empresária, escritora, publicitária, palestrante, professora de comunicação na ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing) e digital influencer, Maytê é uma profissional de múltiplas especializações, conquistando diferentes públicos e mercados. A jovem, que iniciou sua carreira aos 18 anos, ficou conhecida por ganhar o reality “O Aprendiz Especial Universitário” e por participar do programa “Shark Tank Brasil”, conquistando investimento em sua startup de beleza que, na época, foi número #1 no app store. Atualmente, Maytê atua, em Los Angeles/CA, como diretora de estratégia de negócios em uma das maiores agências de publicidade dos Estados Unidos. É autora do livro “Persuasão”, um guia prático que busca ajudar seus leitores a como usar a retórica e comunicação persuasiva em suas vidas profissionais e pessoais. A obra best-seller já vendeu milhares de cópias e está em oitavo lugar na lista de livros de negócios mais vendidos no Brasil feita pela PublishNews. Em seu Instagram (@maytecarvalhos), a influenciadora reúne mais de 59 mil seguidores, que buscam conhecimento e acompanham a sua rotina vivendo em uma cidade americana.


Sobre Mayra Cardozo

Advogada especialista em Direitos Humanos pela Universidade Pablo de Olavide (UPO) – Sevilha. A professora de Direitos Humanos da pós-graduação do Uniceub - DF, é palestrista, mentora de Feminismo e Inclusão e Coach de Empoderamento Feminino. Membro permanente do Conselho Nacional de Direitos Humanos da OAB e do Comitê Nacional de Combate à Tortura do Ministério da Mulher e dos Direitos Humanos.


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