Sete de Setembro

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Existe uma narrativa conveniente, ensinada em escolas e repetida em redes sociais com a certeza de quem nunca questionou nada, de que Portugal saqueou o Brasil, roubou todo o ouro, e é por isso que somos pobres até hoje. Bonita narrativa. Tem apenas um defeito fatal: é falsa. Portugal cobrava o Quinto — 20% sobre o ouro extraído e fundido. Elevado? Sem dúvida. Injusto pelos padrões de hoje? Talvez. Mas era a regra do jogo do século XVIII. E os restantes 80% ficavam no Brasil nas mãos dos mineradores, das elites coloniais, dos comerciantes e das Igrejas que construíam com ouro em pó.

O principal imposto era o quinto, 20% sobre o ouro extraído e fundido. Considerando o balanço completo, Portugal levou ouro, açúcar e outros produtos, mas deixou uma estrutura que permitiu que o Brasil se tornasse um país continental e culturalmente rico.

E tem mais: a Gazeta do Povo calculou que o gasto com funcionalismo público no Brasil, em apenas um ano de 2024, somou cerca de R$ 1,5 trilhão o que em ouro representa mais de quatro vezes todo o metal produzido no Brasil durante todo o período colonial.

Portugal cobrava 20% em três séculos de colônia. O governo brasileiro de hoje consome em salários de funcionários públicos, em um único ano, mais de quatro vezes todo o ouro que Portugal levou em trezentos anos de colonização.

Mesmo com o ouro levado para a Europa, o que mais pesa nessa balança de prosperidade econômica é o que os governos brasileiros fizeram ou deixaram de fazer ao longo dos últimos dois séculos, quando o Brasil deixou de ser colônia portuguesa.

Quem saqueou o Brasil não foi Portugal. Foram os dois séculos de governos brasileiros que substituíram a Coroa lusitana cobrando mais, devolvendo menos e chamando isso de progresso. Portugal pelo menos construiu cidades, portos, estradas, universidades.

O quinto era imposto. Imposto alto, colonialista, da época. Mas imposto tem recibo. O que o governo brasileiro faz hoje não tem nem isso.

Reservado e melancólico, Dom Pedro II era diferente em tudo de seu pai impetuoso, tendo permanecido no poder por quase cinquenta anos em um dos reinados mais longos da história. Sem ter se tornado obcecado pelo poder que ele negligenciava (parece ficção científica comparado ao que temos hoje) em favor dos estudos Dom Pedro II sabia como se afirmar e equilibrar forças políticas opostas, conduzindo o país para um período de estabilidade.

Dom Pedro II falava mais de dez idiomas. Correspondia-se com Victor Hugo, com Louis Pasteur, com Charles Darwin, com Henry Wadsworth Longfellow a quem traduziu para o português. Foi o primeiro chefe de Estado do mundo a usar o telefone, quando Alexander Graham Bell lhe apresentou o invento em 1876. Pagava do próprio bolso pesquisadores e cientistas. Financiou expedições. Fundou instituições.

Defensor dos ideais republicanos, imperador-cidadão, abolicionista reticente dentro de uma estrutura escravocrata, intelectual e sábio em um país em que 80% da população ainda era analfabeta. No exame dos registros e manifestações de tantos memorialistas e historiadores, observa-se hoje a consolidação de um juízo favorável a Dom Pedro II, como um homem ético, erudito, pesquisador, imbuído de sentido de missão, cujo comportamento austero marcou seus quase cinquenta anos à frente do Império.

Um imperador que defendia a república. Que queria a abolição. Que vivia austeramente enquanto dirigia o país mais rico das Américas. Que não se agarrava ao poder. Que estudava enquanto governava.

E o povo sabia disso. Os brasileiros se mantiveram apegados à figura do imperador popular a quem consideravam um herói e continuaram a vê-lo como o Pai do Povo personificado. Esta visão era ainda mais forte entre os brasileiros negros ou de ascendência africana, que acreditavam que a monarquia representava a libertação.

A visão positiva do imperador e a nostalgia de seu reinado cresceram ainda mais quando o Brasil rapidamente entrou em uma série de crises econômicas e políticas que a população creditou à derrubada do imperador.

O que aconteceu na madrugada do 17 de novembro de 1889 foi simples e brutal: Dom Pedro II, a Imperatriz Teresa Cristina, a Princesa Isabel e outros membros da família embarcaram no navio Alagoas, rumo à Europa. Apesar de ter governado o Brasil por quase cinco décadas, Dom Pedro II aceitou seu exílio com resignação. Em sua última mensagem antes de partir, teria dito: “Se assim é a vontade da nação, parto sem desgosto.”

A vontade da nação. Que nação? A nação não foi consultada. Nenhum plebiscito. Nenhuma eleição. Nenhum voto. Um punhado de militares decidiu o destino de quatorze milhões de brasileiros em uma madrugada — e chamou isso de República.

O povo brasileiro não participou desse processo. A mudança de regime foi decidida e executada por grupos políticos e militares, sem votação ou consulta popular. Na manhã do 15 de novembro, tropas do Exército marcharam pelas ruas do Rio de Janeiro e cercaram o Quartel-General do Exército. Não foi Revolução. Foi golpe.

E depois veio Floriano Peixoto, o “Marechal de Ferro”, que assumiu a presidência após a renúncia (ou seria outro golpe) de Deodoro e governou com punho de ferro entre 1891 e 1894. Suprimiu a Revolução Federalista no Sul com uma brutalidade que chocaria qualquer jurista moderno. Mandou fuzilamentos sumários. Perseguiu opositores. Fechou jornais. Ignorou a Constituição que acabara de ser promulgada.

A República nasceu em golpe e foi consolidada com sangue. E os livros didáticos chamam isso de “consolidação democrática”.

Há muitas interpretações entre os estudiosos do período sobre o sentido do 15 de novembro de 1889, mas quase todos parecem concordar que se tratou de um movimento do Exército, com o apoio das elites intelectuais, igrejas e latifundiários, sem a participação da maioria esmagadora da população.

Elites intelectuais, igrejas e latifundiários. Três grupos que, curiosamente, tinham muito a ganhar com a mudança — e que passaram os cem anos seguintes convencendo o povo de que a mudança havia sido feita por ele e para ele.

Dom Pedro II morreu em Paris, em 5 de dezembro de 1891 — dois anos após o exílio. Sozinho, hospedado num hotel, depois que a Imperatriz Teresa Cristina morreu em dezembro de 1889, menos de um mês após deixar o Brasil. Ela nunca se recuperou do choque. Pedro de Alcântara, com 66 anos, seguiu sozinho para Paris, ficando hospedado no Hotel Bedford, onde passava o dia lendo e estudando.

Lendo e estudando. Exilado. Sem amargura pública declarada. Com a mesma dignidade com que governou por 58 anos um país que não soube o que tinha enquanto tinha.

Portugal cobrava 20% e construiu um país. O Brasil cobra muito mais do que isso (praticamente o dobro). Deodoro depôs o maior estadista que o Brasil já teve e renunciou nove meses depois sob pressão política. Floriano consolidou a república fuzilando oposição

Se Dom Pedro II fosse candidato hoje, com sua biografia real, austero, culto, abolicionista, que negligenciava o poder em favor dos estudos, que falava dez idiomas e se correspondia com Darwin, seria eleito? Provavelmente não. Não promete dar nada para ninguém. Não tem populismo suficiente para sobreviver ao primeiro turno.

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